1.1 Conquistas Epistêmicas vs Objetivos Epistêmicos
Talvez seja apenas um leve exagero dizer que o realismo científico é caracterizado diferentemente por todos os autores que o discutem, e isso apresenta um desafio para qualquer um que deseja aprender o que é o realismo científico. Felizmente, por baixo das muitas qualificações e variações idiossincráticas das posições, existe um núcleo comum de ideias, tipificado por uma atitude epistemicamente positiva em direção aos outputs da investigação científica, considerando ambos os aspectos observáveis e inobserváveis do mundo. A distinção entre o observável e inobservável reflete as capacidades sensoriais humanas: o observável é aquilo que pode, sob condições favoráveis, ser percebido usando apenas os sentidos (por exemplo, planetas e ornitorrincos); o inobservável é aquilo que não pode ser detectado dessa forma (por exemplo, proteínas e prótons). Essa visão é privilegiada meramente por conveniências terminológicas, e difere das concepções científicas de observabilidade, a qual geralmente é estendida para coisas que são detectáveis usando instrumentos (Shapare 1982). A distinção em si tem sido problematizada (Maxwell 1962, Churchland 1985, Musgrave 1985, Dicken & Lipton 2006), mas se isso é problemático, isso é uma maior preocupação primariamente para certas formas de antirrealismo, o qual adota uma atitude epistemicamente positiva somente a respeito dos observáveis. Essa não é fundamentalmente a preocupação para o realismo científico, o qual não discrimina epistemicamente entre observáveis e inobserváveis per se.
Antes de considerar as nuances sobre o que o realismo científico implica, será útil distinguir entre dois diferentes tipos de definição nesse contexto. Mais comumente, a posição é descrita em termos de conquistas epistêmicas constituídas por teorias científicas (e modelos - essa qualificação será tida como dada daqui em diante). Nessa abordagem, o realismo científico é uma posição a respeito do atual status epistêmico das teorias (ou algum componente disso), e isso é descrito de inúmeras formas. Por exemplo, a maioria define o realismo científico em termos de verdade ou verdade aproximada das teorias científicas ou certos aspectos das teorias. Alguns definem em termos de referências mais bem-sucedidas dos termos teóricos às coisas no mundo, tanto observável quanto inobservável. (Uma nota sobre a literatura: "termo teórico", anterior aos anos 80, foi inicialmente usado para denotar termos para os inobserváveis, mas aqui será usado para se referir a qualquer termo científico, o qual o uso é mais comum atualmente.) Outros definem realismo científico não em termos de verdade ou referência, mas em termos de crença na ontologia das teorias científicas. O que todas essas abordagens tem em comum são o compromisso com a ideia que nossas melhores teorias tem um certo status epistêmico: elas produzem conhecimento dos aspectos do mundo, incluindo aspectos inobserváveis. (Para definições conforme essas linhas, veja Smart 1963, Boyd 1983, Devitt 1991, Kukla 1998, Niiniluoto 1999, Psillos 1999, and Chakravartty 2007a.)
Uma outra maneira de pensar sobre o realismo científico é em termos de objetivos epistêmicos da investigação científica (van Fraassen 1980, p. 8, Lyons 2005). Isto é, alguns pensam nessa posição em termos de quais são os objetivos da ciência: o realista científico sustenta que os objetivos da ciência é produzir descrições verdadeiras das coisas no mundo (ou descrições aproximadamente verdadeiras, ou aqueles cujos termos centrais referem-se de forma bem-sucedida, e assim por diante). Há uma implicação fraca aqui no sentido em que se a ciência visa a verdade e a prática científica é bem-sucedida, a caracterização do realismo científico em termos de objetivos deve então implicar alguma forma de caracterização em termos de conquista. Mas isso não é uma implicação estrita, desde que definindo o realismo científico em termos de visar a verdade, a rigor, não sugere nada sobre o sucesso da prática científica a respeito disso. Por essa razão, alguns tomam a caracterização aspiracional do realismo científico como sendo muito fraca (Kitcher 1993, p. 150, Devitt 2005, n. 10, Chakravartty 2007b, p. 197) - isso é compatível com as ciências nunca, na realidade, conquistando, e até a impossibilidade dessa conquista, seus objetivos como concebido nessa visão de realismo científico. A maioria dos realistas científicos comprometem-se com algo mais em termos de conquistas, e isso é assumido no que se segue.
1.2. As Três Dimensões do Comprometimento Realista
A descrição do realismo científico como uma atitude epistêmica positiva em relação às teorias, incluindo partes putativamente em relação aos inobserváveis, é um tipo de atalho para um comprometimento mais preciso (Kukla 1998, cap. 1, Niiniluoto 1999, ch. 1, Psillos 1999, Introduction, Chakravartty 2007a, cap. 1). Tradicionalmente, realismo é mais associado com qualquer posição que endossa a crença na realidade de alguma coisa. Assim, alguém pode ser um realista sobre as percepções de outrem das mesas e das cadeiras (realismo sobre dado do sentido) ou sobre as mesas e cadeiras em si (realismo sobre o mundo externo), ou sobre entidades matemáticas tais como números e conjuntos (realismo matemático), e assim por diante. Realismo científico é um realismo sobre o que quer que seja descrito por nossas melhores teorias científicas - a partir desse ponto, "realismo" aqui denota realismo científico. Mas o que, mais precisamente, é isso? A fim de ser claro sobre o que o realismo no contexto das ciências conta, e diferenciar isso de algumas das importantes alternativas antirrealistas, é útil entender isso em termos de três dimensões: uma dimensão metafísica (ou ontológica); uma dimensão semântica; e uma dimensão epistemológica.
Metafisicamente, o realismo está comprometido com a existência de um mundo independente da mente investigado pelas ciências. Essa ideia é melhor compreendida em contraste com posições que a negam. Por exemplo, é negada por qualquer posição que caia sobre o tradicional título de "idealismo", incluindo alguma forma de fenomenologia, de acordo com qual não há um mundo externo e, consequentemente, independente da mente. Esse tipo de idealismo, embora historicamente importante, é raramente encontrando na filosofia da ciência contemporânea. As rejeições mais comuns de raiz mente-independente vem das visões neo-kantianas da natureza do conhecimento científico, o qual nega que o mundo das nossas experiências é independente da mente, mesmo que (em alguns casos) essas posturas aceitem que o mundo em si não dependa da existência das mentes. A controvérsia aqui é que o mundo investigado pelas ciências - como distinta do "mundo em si" (assumindo que essa é uma distinção coerente) - é em algum sentido dependente das ideias que alguém traz para a investigação científica, o qual pode incluir, por exemplo, suposições teóricas e treinamento perceptual; essa proposta é mais detalhada na seção 4. É importante notar nessa conexão que a convenção humana na taxonomia científica é compatível com ideia de independência da mente. Por exemplo, embora Psillos (1999, p. xix) vincula o realismo a "uma estrutura de tipo natural independente da mente" do mundo, Chakravartty (2007a, cap.6) argumenta que as propriedades independente da mente são com frequência convencionalmente agrupadas entre tipos (veja também Boyd 1991 e Humphreys 2004, pp. 22–25, 35–36).
Semanticamente, o realismo compromete-se a uma interpretação literal das afirmações científicas sobre o mundo. Em linguagem comum, realistas tomam as declarações teóricas com valor aparente*. De acordo com o realismo, afirmações sobre entidades, processos, propriedades e relações científicas, se elas são observáveis ou inobserváveis, devem ser construídas literalmente como tendo valores de verdade, sendo verdadeiras ou falsas. Esse comprometimento semântica contrasta principalmente com aquelas tão chamadas epistemologias instrumentalistas da ciência, o qual interpreta as descrições dos inobserváveis simplesmente como instrumentos para predições de fenômenos observáveis, ou para sistematizar relatórios de observação. Tradicionalmente, o instrumentalismo mantém que afirmações sobre coisas inobserváveis não tem significado literal bem no fim (embora o termo é frequentemente usado mais abertamente em conexão com algumas posições antirrealistas atuais). Alguns antirrealistas mantém que afirmações envolvendo inobserváveis não devem ser interpretadas literalmente, e sim como elípticas para corresponder às afirmações sobre observáveis. Essas posições serão descritas em mais detalhes na seção 4.
Epistemologicamente, o realismo é comprometido com a ideia de que afirmações teóricas (interpretadas literalmente como descrevendo uma realidade independente da mente) constituem conhecimento do mundo. Isso contrasta com as posições céticas as quais, mesmo que eles admitam as dimensões metafísicas e semânticas do realismo, duvidam que a investigação científica é epistemologicamente poderosa o suficiente para produzir tal conhecimento, ou, como no caso de algumas posições antirrealistas, insistam que é somente poderosa o suficiente para produzir conhecimento sobre observáveis. A dimensão epistemológica do realismo, embora compartilhada pelos realistas em geral, é algumas vezes descrita mais especificamente em maneiras contrárias. Por exemplo, enquanto muitos realistas subscrevem a verdade (ou verdade aproximada) das teorias entendidas em termos de alguma versão da teoria da verdade como correspondência (como sugerida por Fine 1986 e contestada por Ellis 1988), alguns preferem a explicação deflacionária de verdade (incluindo Giere 1988, p. 82, Devitt 2005, e Leeds 2007). Embora a maioria dos realistas unem suas posições às referências mais bem-sucedidas dos termos teóricos, incluindo aquelas para entidades, processos, propriedades e relações inobserváveis (Boyd 1983, e como descrito por Laudan 1981), alguns negam que isso é um requisito (Cruse & Papineau 2002, Papineau 2010). No meio dessas diferenças, no entanto, uma receita geral para o realismo é amplamente compartilhada: nossas melhores teorias científicas dão verdadeiras ou aproximadamente verdadeiras descrições de aspectos observáveis e inobserváveis de um mundo independente da mente.
* N.T.: "Face value" foi traduzido como "valor aparente", pois "tomar algo como valor aparente" - to take something at face value - significa que o que aparece para nós é de fato assim mesmo, não há nada além.
1.3 Qualificações e Variações
A receita geral para o realismo que acaba de ser descrita é boa, porém ainda fica aquém ao grau de precisão que a maioria dos realistas oferecem. Duas principais fontes de imprecisão aqui são encontradas na receita geral em si, a qual faz referência a ideia de "nossas melhores teorias científicas" e a noção de "verdade aproximada". A motivação para essas qualificações é talvez clara. Se alguém está defendendo uma atitude epistêmica positiva em relação às teorias científicas, é racional não meramente fazer uma conexão com alguma teoria (especialmente quando alguém considera que, ao longo da história das ciências até o presente, algumas teorias não foram ou não são especialmente bem-sucedidas), mas antes com respeito as teorias que pareceriam, prima facie, merecer tal defesa, a saber, nossas melhores teorias. E isso é amplamente mantido, até pelos realistas, que até mesmo muitas das nossas melhores teorias científicas são possivelmente falsas, estritamente falando, por isso a importância da noção de que as teorias podem estar "perto" da verdade (isto é, aproximadamente verdadeiras) ainda que elas sejam falsas. O desafio de fazer essas qualificações mais precisas, no entanto, é significativa e tem gerado muita discussão.
Considere primeiro a questão de como melhor identificar aquelas teorias que os realistas deveriam ser realistas. Um aviso geral será dito: realistas são geralmente falibilistas, sustentando que realismo é apropriado em conexão com as nossas melhores teorias mesmo que elas provavelmente não possam ser provadas com certeza absoluta; algumas de nossas melhores teorias podem de uma maneira concebível tornarem-se significativamente equivocadas, mas os realistas mantém que, admitindo essa possibilidade, existem bases para o realismo. Essas bases são reforçadas restringindo o domínio das teorias adequadas para o comprometimento realistas àquelas que são suficientemente maduras e não ad hoc (Worrall 1989, pp. 153-154, Psillos 1999, pp. 105–108). Maturidade pode ser pensada em termos da natureza de um campo bem estabelecido no qual uma teoria é desenvolvida, ou o tempo de duração que uma teoria sobreviveu, ou sua sobrevivência diante de testes significativos; e a condição de ser não ad hoc destina-se a proteger contra as teorias que são "inventadas" (isto é, meramente postuladas), a fim de explicar algumas observações conhecidas na ausência de testes rigorosos. Nessas interpretações, no entanto, tanto a noção de maturidade e a noção de ser não ad hoc são confessadamente vagas. Uma estratégia para adicionar precisão é atribuir essas qualidades às teorias que fazem novas predições bem-sucedidas. A habilidade de uma teoria fazer isso, como costumam argumentar, marca genuinamente o seu sucesso empírico, e o tipo de teoria o qual realistas devem estar inclinados a comprometer-se (Musgrave 1988, Lipton 1990, Leplin 1997, White 2003, Hitchcock & Sober 2004, Barnes 2008; para uma opinião discordante, veja Harker 2008).
A ideia que com o desenvolvimento das ciências ao longo do tempo, as teorias convergem ("movendo-se em direção", "mais perto") à verdade, é um tema comum em discussão realistas sobre a troca de teorias (por exemplo, Hardin & Rosenberg 1982 and Putnam 1982). Falar sobre verdade aproximada é frequentemente invocado nesse contexto, e tem produzido uma quantidade significativa de trabalhos altamente técnicos, conceitualizando a verdade aproximada como alguma coisa que pode ser quantificada, tal como julgamentos de verdade aproximada relativa (de alguma proposição ou teoria em comparação a outra) pode ser formalizado e dada definições precisas. Esse trabalho fornece um meio possível pelo qual considera a afirmação convergentista que teorias podem ser vistas como cada vez mais aproximadas da verdade ao longo do tempo, e essa possibilidade é considerada na seção 3.4.
Uma final e especialmente importante qualificação à receita geral para o realismo descrito acima vem na forma de um número de variações. Essas espécies de realismo genérico pode ser visto como caindo dentro de três famílias ou campos: realismo explanacionista; realismo de entidades; e realismo estrutural. Há um compartilhado princípio de especiação aqui, em todas essas três abordagens são tentativas de identificar mais especificamente os componentes de teorias científicas que são mais dignos de compromisso epistêmicos. Explanacionismo recomenda o compromisso realista com respeito a aquelas partes das nossas melhores teorias - considerando entidades, processos, leis (inobserváveis) - que são em algum sentido indispensáveis ou senão importante para explicar seu sucesso empírico - por exemplo, componentes das teorias que são cruciais a fim de derivar novas predições bem-sucedidas. Realismo de entidades é a visão que sob condições as quais alguém pode demonstrar grande conhecimento causal de uma entidade (inobservável) putativa, tal como conhecimento que facilita a manipulação de entidades e seu uso de modo a intervir em outros fenômenos, esse alguém tem boas razões para o realismo considerando isso. Realismo estrutural é a visão que alguém deve ser um realista, não em conexão com descrições das naturezas das coisas (como entidades e processos inobserváveis) encontrado em nossas melhores teorias, mas antes com respeito a sua estrutura. Todas essas três proposições adota uma estratégia seletiva, a isso e as próprias posições serão consideradas na seção 2.3.
Texto orginal de autoria de Anjan Chakravartty.
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