terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Realismo Científico (Parte 3 de 4)

3. CONSIDERAÇÕES CONTRA O REALISMO CIENTÍFICO (E REPOSTAS)


3.1 A Subdeterminação da Teoria pelos Dados

Alinhado em oposição às várias motivações para o realismo apresentadas na seção 2, existe um número importante de argumentos antirrealista, todos os quais têm pressionado realistas ou para tentar refutá-los, ou para modificar o seu realismo de forma adequada. Um desses desafios, a subdeterminação da teoria pelos dados, tem uma história na filosofia do século vinte em termos gerais, e é frequentemente ligado ao trabalho de Duhem (1954/1906. cap.6). Em observações sobre a confirmação das hipóteses científicas (em física, o qual ele contrasta com a química e a fisiologia), Duhem notou que uma hipótese não pode ser usada para derivar predições testáveis isoladamente; para derivar predições também requer-se suposições "auxiliares", tais como teorias de fundo, hipóteses sobre instrumentos e medições, etc. Se observações e experimentos subsequentes produzirem dados que conflitem com àquelas preditas, pode-se pensar que isso reflete mal a hipótese sob teste, mas Duhem apontou que dada todas as suposições requeridas para derivar predições, não é uma simples questão de identificar onde está o erro. Diferentes ajustes a um conjunto total de crenças quanto às hipóteses e teorias, farão com que elas sejam consistentes com os dados. Um resultado similar é comumente associado com um posterior "holismo confirmacional" de Quine (1953), segundo o qual a experiência (incluindo, claro, àquela associada com a testagem científica) não confirma ou anula crenças individuais per se, mas antes o conjunto de crenças tomada como um todo. A tese da subdeterminação é, assim, algumas vezes referida como a "tese Duhem-Quine" (veja Ben-Menahem 2006 para uma introdução histórica).

Como isso causa uma preocupação para o realismo? O argumento da subdeterminação procede assim: vamos chamar de relevante o conjunto total de crenças científicas de "teorias"; diferentes teorias conflitantes são consistentes com os dados; os dados exaustam as evidências para a crença; então, não há razões evidentes para acreditar em uma tese e não na outra. Dado que as teorias diferem precisamente no que elas dizem sobre os inobserváveis (suas consequências observáveis - os dados - são todas partilhadas), um desafio para o realismo surge: a escolha entre quais teorias acreditar é subdeterminada pelos dados. No debate contemporâneo, o desafio é normalmente apresentado usando uma terminologia sutilmente diferente. Toda teoria, dizem, têm rivais empiricamente equivalentes - isto é, rivais que concordam com respeito aos observáveis, mas diferem em respeito aos inobserváveis. Isso então serve de base para o argumento cético em relação à verdade de qualquer teoria em particular que o realista queira endossar. Várias formas de antirrealismo depois sugeriram que as hipóteses e as teorias envolvendo inobserváveis são endossadas, não meramente baseadas em evidências que podem ser relevantes para a sua verdade, mas também são baseadas em outros fatores que não são indicativos da verdade como tais (veja seções 3.2, e 4.2-4.4). (Para explicações modernas, veja van Fraassen 1980, ch. 3, Earman 1993, Kukla 1998, caps. 5–6, e Stanford 2001.)

O argumento da subdeterminação é contestado de inúmeras formas. Pode-se, por exemplo, distinguir entre subdeterminação na prática (ou em um momento) e subdeterminação em princípio. No primeiro caso, há uma subdeterminação somente porque os dados que dariam apoio a alguma teoria ou hipótese às custas de uma outra não é possível, aguardando os previsíveis desenvolvimentos da técnica experimental ou instrumental. Aqui, o realismo é  defensavelmente consistente com a atitude de "espere e veja", ainda que se a expectativa de uma evidência discriminatória futura seja pobre, o compromisso com o futuro faz com que o realismo possa ser questionado. De qualquer modo, a maioria dos proponentes da subdeterminação insistem na ideia da subdeterminação em princípio: a ideia de que sempre haverá (plausíveis) rivais empiricamente equivalentes não importando quais evidências poderiam surgir. Em resposta, alguns argumentam que a preocupação de princípio não pode ser estabelecida, uma vez que o que conta como dado é apto a mudar conforme o tempo com o desenvolvimento de novas técnicas e instrumentos, e com mudanças no conhecimento científico de fundo, o qual altera as suposições auxiliares requeridas para derivar predições observáveis (Laudan & Leplin 1991). Tais argumentos repousam, no entanto, em diferentes conceitos de dado mais do que os antirrealistas gostariam de admitir (definido acima, em termos de capacidades humanas sensoriais). (Para outras respostas, veja Okasha 2002, van Dyck 2007, e Busch 2009. Stanford 2006 propôs uma versão historicizada do argumento da subdeterminação, discutida em Chakravartty 2008 e Godfrey-Smith 2008).


3.2 Ceticismo sobre a Inferência para a Melhor Explicação

Uma especialmente importante reação às preocupações sobre a alegada subdeterminação da teoria pelos dados levanta outro principal argumento antirrealista. Essa reação é a de rejeitar uma premissa chave para o argumento da subdeterminação, a saber, que a evidência para a crença numa teoria é esgotada pelos dados empíricos. Muitos realistas argumentam que outras considerações - na maior parte, considerações explicativas - tem uma função evidencial na inferência científica. Se for assim, então mesmo que se conceda a ideia de que todas as teorias tenham rivais empiricamente equivalentes, isso não implicaria subdeterminação, uma teoria em particular tendo superioridade explicativa pode determinar a escolha.(Laudan 1990, Day & Botterill 2008). Esse é um exemplo específico de uma forma de raciocínio pelo qual "nós inferimos o que iria, se verdadeiro, fornecer a melhor explicação da evidência" (Lipton 2004/1991, p. 1). Para pôr a validez do realista contra ele: "infere-se da premissa, de que uma dada hipótese forneceria uma explicação 'melhor' para a evidência do que qualquer outra hipótese, para a conclusão de que uma dada hipótese é verdadeira" (Harman 1965, p. 89). A inferência para a melhor explicação (conforme a formulação de Lipton) parece ubíqua na prática científica. A questão de se pode ser esperado o tipo produção de conhecimento sugerido pelo realismo (conforme a formulação de Harman) é, no entanto, matéria de disputa.
Duas dificuldades são imediatamente visíveis em relação a aspiração realista para inferir a verdade (verdade aproximada, existência de entidades, etc.) das hipóteses ou teorias que são julgadas como melhores em fundamentos explicativos. A primeira dificuldade é sobre os fundamentos eles mesmos. A fim de julgar que uma teoria fornece uma melhor explicação de algum fenômeno do que outra, deve-se empregar algum critério ou critérios com base no qual o julgamento é feito. Muitos tem proposto simplicidade (se da descrição matemática ou em termos de números ou natureza de entidades, propriedades, ou relações envolvidas); consistência e coerência (ambas internamente e externamente com respeito a outras teorias e conhecimento de fundo); escopo e unidade (referindo-se ao domínio dos fenômenos explicados); e assim por diante. Um desafio aqui é se as virtudes tais como essas podem ser definidas de forma suficientemente precisas para permitir rankings relativo à excelência da explicação. Um outro desafio considera os múltiplos significados associados a algumas virtudes (considere, por exemplo, a simplicidade matemática vs a simplicidade ontológica). Uma outra preocupação é a possibilidade de que essas virtudes podem não favorecer uma teoria em particular. Finalmente, há a questão de se essas virtudes devem ser consideradas evidenciais ou epistêmicas, em oposição à meramente pragmáticas. Qual é a razão para pensar, por exemplo, que a simplicidade é um indicador da verdade? Consequentemente, a habilidade de classificar as teorias com respeito as suas probabilidades de serem verdadeiras podem ser questionadas.

Uma segunda dificuldade sobre a inferência para a melhor explicação concerne as acumulações de teorias no tocante aos julgamentos sobre a relativa eficácia explicativa que são feitas. Mesmo que os cientistas sejam possivelmente confiáveis classificadores de teorias com respeito à verdade, isso não produz crença em uma teoria (em alguns domínios) a menos que a teoria em particular ocorra de estar entre àquelas consideradas. Caso contrário, como van Fraassen (1989, p.143) notou, pode-se simplesmente terminar com "o melhor dentre os piores". Dado a bem difundida visão, até entre os realistas, de que muitas e talvez a maioria de nossas melhores teorias são falsas, estritamente falando, esse problema pode ser especialmente premente. No entanto, apenas a maneira que a estratégia realista da seletividade (veja seção 2.3.) pode oferecer respostas a essa questão do que significa para uma teoria estar perto da verdade sem ser verdadeira simpliciter, essa mesma estratégia pode oferecer os começos de uma resposta. Isto quer dizer, a melhor teoria dentre as piores pode não obstante descrever aspectos inobserváveis do mundo de uma tal maneira  que atenda aos diferentes padrões de realismo incluindo explanacionismo, realismo de entidades e realismo estrutural. (Para um livro inteiro tratando sobre a inferência para a melhor explicação, veja Lipton 2004/1991; para defesas, veja Lipton 1993, Day & Kincaid 1994, e Psillos 1996, 2009, parte III; para críticas, veja van Fraassen 1989, caps. 6–7, Ladyman, Douven, Horsten & van Fraassen 1997, e Wray 2008.)


3.3 A Indução Pessimista

Preocupações sobre a subdeterminação e a inferência para a melhor explicação são geralmente conceituais por natureza, mas a então chamada indução pessimista (também chamada de "meta-indução pessimista", porque diz respeito ao "nível de base" das inferências indutivas que produzem teorias e leis científicas) pretende-se como um argumento com premissas empíricas. Se considerarmos a história das teorias científicas em uma dada disciplina, o que tipicamente achamos é uma regular reviravolta de teorias antigas sendo substituídas por novas teorias, conforme o conhecimento científico desenvolve-se. Do ponto de vista do presente, a maioria das teorias antigas devem ser consideradas falsas; de fato, isso será verdade do ponto de vista na maioria das vezes. Então, por indução enumerativa (isto é, generalizando a partir desses casos), certamente as teorias em qualquer dado momento irão por fim ser substituídas e consideradas como falsas em algum momento futuro. Consequentemente, teorias atuais serão também falsas. A ideia geral de uma indução pessimista tem uma rica linhagem. Embora não endossando o argumento, Poincaré (1952/1905, p. 160), por exemplo, descreve a aparente "falência da ciência" dado a visivelmente "natureza efêmera" das teorias científicas, o qual descobre-se "uma abandonada após a outra", e Putnam (1978, pp. 22–25) descreve o desafio em termos de falhas de referência dos termos para os inobserváveis, com a consequência de que teorias empregando-as não podem ser ditas verdadeiras.

A discussão contemporânea é comumente focada no argumento de Laudan (1981) no sentido de que a história da ciência fornece uma vasta evidência de teorias empiricamente bem-sucedidas que foram depois rejeitadas; a partir de uma perspectiva ulterior, seus termos inobserváveis foram julgados sem referência e consequentemente não sendo considerados como verdadeiros ou nem aproximadamente verdadeiros. (Se preferir definir realismo em termos de ontologia científica em vez de referência e verdade, a preocupação pode ser reformulada em termos de ontologias equivocadas de teorias antigas de uma perspectiva posterior.) Respostas a esse argumento geralmente tomam uma das duas formas, a primeira decorrente das qualificações para o realismo esboçadas na seção 1.3, e a segunda das formas de seletividade realista esboçadas na seção 2.3 - ambas podem ser entendidas como tentativas para restringir a base indutiva do argumento de tal maneira que frustre a conclusão pessimista. Por exemplo, pode-se afirmar que se somente teorias suficientemente maduras e não ad hoc são consideradas, o número cujo os termos centrais não se referem e/ou o qual não podem ser relacionadas como aproximadamente verdadeiras é dramaticamente reduzido (veja referências na seção 1.3). Ou, o realista pode garantir que a historia da ciência apresenta um histórico de significativa descontinuidade referencial, mas mantendo que, não obstante, pode-se apresentar um histórico de continuidade impressionante considerando o que é apropriadamente endossado pelo realismo, como recomendado por explanacionistas, realistas de entidades, ou realistas estruturais (veja referencias, seção 2.3). (Para outras respostas, veja Leplin 1981, McAllister 1993, Chakravartty 2007, ch. 2, Doppelt 2007, e Nola 2008; Hardin & Rosenberg 1982, Cruse & Papineau 2002, e Papineau 2010 explora a ideia de que a referência é irrelevante para a verdade aproximada).

Na exata maneira em que alguns autores sugerem que o argumento do milagre é um caso de raciocínio falaciosos - falácia da taxa de base (veja seção 2.1) - alguns sugerem que a indução pessimista é falha da mesma forma (Lewis 2001, Lange 2002, Magnus & Callender 2004). O argumento é análogo: a falha putativa da referência na parte das antigas teorias bem-sucedidas, ou sua putativa falta de verdade aproximada, não pode ser usada para derivar a conclusão em relação as chances que nossas atuais melhores teorias não se referem aos inobserváveis, ou que elas não são aproximadamente verdadeiras, ao menos que saibamos a taxa de base da não referência ou não aproximadamente verdade das teorias em acúmulos relevantes. E como não se pode saber isso independentemente, a indução pessimista é falaciosa. De novo, analogamente, pode-se argumentar que a formalização do argumento em termos de probabilidades, como é requerido a fim de invocar a falácia da taxa de base, é perder o ponto mais fundamental subjacente a indução pessimista (Saatsi 2005b). Pode-se ler o argumento simplesmente como cortando um suposto link entre o sucesso empírico das teorias científicos e a bem-sucedida referência ou verdade aproximada, como oposto para uma indução enumerativa per se. Se mesmo uns poucos exemplos da história da ciência demonstrar que teorias podem ser empiricamente bem-sucedidas e ainda falhar em referir-se ao inobserváveis centrais que as invocam, ou falhar em ser o que os realistas consideram como aproximadamente verdadeiro, isso constitui prima facie um desafio para a noção que somente o realismo pode explicar o sucesso da ciência.


3.4 Ceticismo sobre Verdade Aproximada

Um regular apelo à noção de verdade aproximada pelos realistas tem diversas motivações. O muito difundido uso de abstração (isto é, incorporando alguns, mas não todos, os parâmetros relevantes na descrição científica) e idealização (alterando a natureza de certos parâmetros) sugere que mesmo muitas das nossas melhores teorias e modelos não são estritamente corretas. A disputa realista comum é que as teorias podem ser vistas como gradualmente convergindo à verdade como o progresso da investigação científica sugere que tal progresso é passível de avaliação ou medição de alguma maneira, se apenas em princípio. E mesmo para realistas que não são convergentistas de tal maneira, a importância de investir na metáfora das teorias estando perto da verdade é pressionada por antirrealista no sentido de que a metáfora é vazia. O desafio de fazer uma boa metáfora e explicar, em termos precisos, o que a verdade aproximada pode ser, é uma das fontes de ceticismo sobre o realismo. Duas amplas estratégias tem emergido em resposta a esse desafio: tentativas de quantificar a verdade aproximada definindo formalmente o conceito e a noção ligada de verdade aproximada relativa; e tentativas de explicar o conceito informalmente.

A rota formal foi inaugurada por Popper (1972, pp. 231–236), que definiu regulações relativas de "verossimilhança" (literalmente, "semelhança a verdade") entre teorias em um dado domínio ao longo do tempo por meio de uma comparação de suas consequências verdadeiras e falsas. Miller (1974) e Tichy (1974), no entanto, provaram que há um problema técnico com essa explicação. Produzir consequências com intuito de que teoria A tenha maior verossimilhança que a teoria B, A deve ser verdade  simpliciter - situação que deixa o realista insatisfeito e desejando uma explicação de como rigorosamente as teorias falsas podem diferir com respeito a verdade aproximada. Outra explicação formal é a abordagem dos mundos possíveis (também chamada de abordagem da "similaridade"), segundo o qual as condições de verdade de uma teoria são identificadas com um conjunto de mundos possíveis no qual é verdadeira, e a "veracidade" é calculada por meios de uma função que compara a média ou alguma outra "distância" matemática entre o mundo atual e os mundos naquele conjunto, assim facilitando regulações das teorias com respeito a veracidade (Tichý 1976, 1978, Oddie 1986b, Niiniluoto 1987, 1998; para críticas, veja Miller 1976 e Aronson 1990). Uma última tentativa de formalizar a verdade aproximada é o tipo de abordagem hierárquica, o qual analisa veracidade em termos de relações de similaridade entre nós de gráficos estruturados em árvore e tipos e subtipos representando conceitos científicos por um lado, e as entidades, propriedades, e relações no mundo que eles putativamente representam por outro lado (Aronson 1990, Aronson, Harré, & Way 1994, pp. 15–49; para uma crítica, veja Psillos 1999, p. 270–273).

Menos formalmente e talvez mais tipicamente, realistas tem tentado explicar a verdade aproximada em termos qualitativos. Uma sugestão comum é que uma  teoria pode ser considera mais aproximada da verdade do que outra que a precede se a teoria anterior pode ser descrita como um "caso limite" da posterior. A ideia de casos limites e relações interteóricas é mais normalmente elaborada por Post (1971; veja também French & Kamminga 1993), que argumenta que certos princípios heurísticos na ciência produzem teorias que "conservam" as partes bem-sucedidas de suas predecessoras. Seu "Princípio Geral de Correspondência" declara que novas teorias comumente explicam o sucesso de suas predecessoras por "degenerações" nas teorias antigas em domínios no qual as teorias antigas foram bem confirmadas. Por isso, por exemplo, a frequentemente citada afirmação de que certas equações na física relativista degeneram-se nas equações correspondentes na física clássica, como a velocidade tendendo ao zero. O realista pode então argumentar que teorias posteriores oferecem  mais descrições aproximadamente verdadeiras do assunto que a teoria aborda, e que os meios no qual elas o fazem pode ser iluminado em parte estudando as maneiras no qual elas edificam-se sobre os casos limites representados pelas suas predecessoras. (Para mais sobre verdade aproximada, veja Leplin 1981, Boyd 1990, Weston 1992, Smith 1998, e Chakravartty 2010.)


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