2.1 O Argumento do Milagre
A mais poderosa intuição em favor do realismo é uma ideia antiga, comumente referida em discussões recentes como o "argumento do milagre" ou "argumento sem milagres", depois de Putnam (1975, p.73) alegar que o realismo "é a única filosofia que não faz o sucesso da ciência um milagre". O argumento começa com uma premissa amplamente aceita que as nossas melhores teorias são extraordinariamente bem-sucedidas: elas facilitam predições empíricas, retrodições, e explanações dos assuntos de investigação científica, muitas vezes marcadas pela surpreendente precisão e intricada manipulação causal dos fenômenos relevantes. O que explica esse sucesso? Uma explicação, favorecida pelos realistas, é que as nossas melhores teorias são verdadeiras (ou aproximadamente verdadeiras, ou corretamente descrevem um mundo independente da mente de entidades, propriedades, leis, estruturas, ou que você quiser). De fato, se essas teorias estão longe da verdade, assim argumentam, o fato de que elas são bem-sucedidas seriam um milagre. E dado a escolha entre uma explicação direta do sucesso ou uma explicação milagrosa, obviamente alguém deve preferir a explicação não-miraculosa, a saber, que as nossas melhores teorias são aproximadamente verdadeiras (etc.). (Para elaborações do argumento do milagre, veja Brown 1982, Boyd 1989, Lipton 1994, Psillos 1999, ch. 4, Barnes 2002, Lyons 2003, Busch 2008, and Frost-Arnold 2010.)
Embora intuitivamente poderoso, o argumento do milagre é contestável de inúmeras maneiras. Uma resposta cética é questionar a própria necessidade de uma explicação para o sucesso da ciência em primeiro lugar. Por exemplo, van Fraassen (1980, p. 40; veja também Wray 2007, 2010) sugere que teorias bem-sucedidas são análogas aos organismos bem-adaptados - uma vez que somente teorias bem-sucedidas (organismos) sobrevivem, não é de se surpreender que as nossas teorias são bem-sucedidas e, então, não há uma demanda para uma explicação do sucesso. Não é inteiramente claro, no entanto, se a analogia evolucionária é suficiente para dissolver a intuição por trás do argumento do milagre. Poderíamos perguntar, por exemplo, por que uma teoria em particular é bem-sucedida (em oposição por que as teorias em geral são bem-sucedidas), e a explicação solicitada pode ser as características específicas da teoria em si, incluindo as suas descrições dos inobserváveis. Se tal explicação precisa ser verdadeira, entretanto, é matéria de debate. Enquanto maioria das teorias da explicação requerem que o explanans seja verdadeiro, teoria pragmáticas da explicação não requerem que o explanans seja verdadeiro (van Fraassen 1980, ch. 5). Geralmente, qualquer epistemologia da ciência que não aceita um ou mais das três dimensões do realismo - comprometimento a um mundo independente da mente, semântica literal, ou acesso epistêmico aos inobserváveis - irá, desse modo, apresentar uma razão putativa para resistir ao argumento do milagre; essas posições serão consideradas na seção 4.
Alguns autores sustentam que o argumento do milagre em si é um caso de raciocínio falaciosos chamado falácia da taxa de base (Howson 2000, cap. 3, Lipton 2004, pp. 196–198, Magnus & Callender 2004). Considere a seguinte ilustração. Há um teste para uma doença pelo qual a taxa de falsos negativos (resultados negativos nos casos onde a doença está presente) é zero, e a taxa de falsos positivos (resultados positivos nos casos onde a doença está ausente) é uma em dez (isto é, 10% das vezes os indivíduos estão livre da doença). Se há um teste positivo, quais são as chances que a pessoa tenha a doença? Seria um erro concluir que, baseado na taxa de falsos positivos, a probabilidade é 90%, uma probabilidade real depende de mais, de informação crucial: a taxa de base da doença na população (a proporção das pessoas doentes). Quanto mais baixa a incidência da doença em geral, mais baixa a probabilidade de um resultado positivo indicar a presença da doença. Por analogia, usando o sucesso de uma teoria científica como um indicador de sua verdade aproximada (assumindo uma baixa taxa de falsos positivos - casos no qual teorias afastadas da verdade são, não obstante, bem-sucedidas) é defensavelmente, do mesmo modo, uma instância de falácia da taxa de base. O sucesso de uma teoria por si só não sugere que é apta a ser verdadeira de forma aproximada, e desde que não há maneira independente de conhecer a taxa de base das teorias aproximadamente verdadeiras, as chances dela ser aproximadamente verdade não podem ser avaliadas. Worrall (2009) mantém que essas controvérsias são ineficientes contra o argumento do milagre, porque elas dependem crucialmente de uma formalização enganadora do argumento em termos de probabilidades.
2.2. Corroboração
Uma estímulo para o realismo em conexão com pelo menos alguns inobserváveis descritos pelas teorias científicas vem por meio de "corroboração". Se uma entidade ou propriedade inobservável é putativamente capaz de ser detectada por instrumento ou experimento, pode-se pensar que isso pode formar a base de um argumento defensável para o realismo. Se, no entanto, aquela mesma entidade ou propriedade é putativamente capaz de ser detectada não apenas por um, mas também por dois ou mais diferentes meios de detecção - formas de detecção que são distintos com respeito aos aparelhos que eles empregam e os processos e mecanismos causais que eles descrevem como proveitoso no curso da detecção - isso pode servir como a base de um argumento significativamente aprimorado a favor do realismo. Hacking (1983, p. 201; veja também Hacking 1985, pp. 146–147) dá o exemplo dos corpos densos em plaquetas sanguíneas vermelhas que podem ser detectados usando diferentes modelos de microscópio. Diferentes técnicas de detecção, tais como aquelas aplicadas em microscopia de luz e microscopia de transmissão eletrônica, fazem uso dos muitos diferentes tipos de processos físicos, e essas operações são descritas teoricamente em termos de diferentes mecanismos causais correspondendo-se. (Para exemplos similares, veja Salmon 1984, pp. 217–219, e Franklin 1986, pp. 166–168, 1990, pp. 103–115).
O argumento da corroboração, portanto, é o seguinte. O fato de que uma e a mesma coisa é aparentemente revelada por modos distintos de detecção sugere que seria uma extraordinária coincidência se o suposto objeto dessas revelações, de fato, não existisse. Quanto maior o alcance em que as detecções podem ser corroboradas por meios diferentes, mais forte é o argumento para o realismo em conexão com o seu objeto putativo. O argumento aqui pode ser visto como pousando em uma intuição similar àquela subjacente ao do argumento do milagre: realismo baseado em uma detecção visível pode ser bastante atraente apenas se meios teoricamente independentes de detecção produzirem o mesmo resultado, sugerindo a existência de um e o mesmo inobservável, assim o realismo fornece uma boa explicação da evidência consiliente, em contraste com o defensável milagroso estado das circunstâncias em que técnicas teoricamente independentes produzam o mesmo resultado na ausência de um objeto em comum. A ideia que técnicas de detecção (putativa) são frequentemente construídas ou calibradas precisamente com a intenção de reproduzir os outputs de outros, no entanto, pode ser usado contra o argumento da corroboração. E mais, van Fraassen (1985, pp. 297–298) argumenta que explicações científicas da consiliência evidencial podem ser aceitadas sem as explicações em si sendo entendidas como verdadeiras, o qual mais uma vez surge questionamentos sobre a natureza da explicação científica.
2.3 Otimismo/Ceticismo Seletivo
Na seção 1.3, a noção de seletividade foi introduzida como um estratégia geral para maximizar a plausibilidade do realismo, particularmente com respeito aos inobserváveis científicos. Essa estratégia é adotada em parte para compatibilizar o realismo com a amplamente aceita ideia de que a maioria senão todas das nossas melhores teorias são falsas, estritamente falando. Se, não obstante, há aspectos dessas teorias que são verdadeiras (ou próximas da verdade) e alguém é apto a identificar esses aspectos, pode-se, então, plausivelmente lançar o realismo em termos de uma atitude epistemicamente positiva diante daqueles aspectos das teorias que são mais dignos de comprometimento epistêmico. As mais importantes variações do realismo a fim de implementar essa estratégia são o explanacionismo, realismo de entidades e realismo estrutural. (Para uma relação de trabalhos pertencentes a noção mais geral de seletividade, veja Miller 1987, caps. 8–10, Fine 1990, Jones 1991, e Musgrave 1992.)
Explanacionistas sustentam que uma atitude realista pode ser justificada em conexão com inobserváveis descritos pelas nossas melhores teorias precisamente quando apelam àqueles inobserváveis que são indispensáveis ou senão importantes para explicar por que essas teorias são bem-sucedidas. Por exemplo, se tomarmos novas predições bem-sucedidas para ser uma marca das teorias dignas do compromisso realista em geral, então explanacionistas sugerem que, mais especificamente, àqueles aspectos da teoria que são essenciais para derivar novas predições são as partes da teoria mais digna de comprometimento realista. Nessa linha, Kitcher (1993, pp. 140–149) delineia uma distinção entre os "postulados pressuposicionais" ou "partes insignificantes" das teorias, e os "postulados operacionais" para os quais os realistas deveriam prestar a atenção. Psillos (1999, caps. 5–6) argumenta que o realismo pode ser defendido demostrando que o sucessos da antigas teorias não dependem dos seus falsos constituintes: "é suficiente mostrar que as leis e os mecanismos teóricos o qual geram o sucesso das teorias antigas têm sido preservados em nossa atual imagem científica" (p.108). O desafio que surge para o explanacionismo é fornecer um método com o qual podemos identificar precisamente aqueles aspectos das teorias que são requeridos para o seu sucesso, de uma maneira que seja objetiva ou com princípios bons o suficiente para resistir a acusação de que os realistas estão meramente racionalizando post hoc, identificando as partes cruciais explicativas das antigas teorias com aspectos que têm sido preservados nas nossas melhores teorias atuais. (Para debates, veja Chang 2003, Stanford 2003a, 2003b, Elsamahi 2005, McLeish 2005, 2006, Saatsi 2005a, Lyons 2006, e Harker 2010.)
Outra versão do realismo que adota a estratégia da seletividade é o realismo de entidades. Nessa visão, o compromisso realista é baseado na habilidade putativa de causalmente manipular entidades inobserváveis (como elétrons ou sequências de genes) de uma maneira excepcional - por exemplo, excepcional no sentido de estar hábil a intervir em outros fenômenos a fim de causar certos efeitos. Quanto maior a habilidade de explorar um notável conhecimento causal de algo a ponto de conduzir (na maioria das vezes extremamente preciso) resultados, mais garantida será a crença (Hacking 1982, 1983, Cartwright 1983, cap. 5, Giere 1989, cap. 5). A crença em inobserváveis científicos assim descritos é aqui associada com um grau de ceticismo sobre teorias científicas em geral, e isso gera dúvidas sobre se acreditar em entidades enquanto recusa a crença em respeito as teorias que as descrevem é uma combinação coerente ou praticável (Morrison 1990, Elsamahi 1994, Resnik 1994, Chakravartty 1998, Clarke 2001, Massimi 2004). Realismo de entidades é especialmente compatível com e agradavelmente facilitado pela teoria causal da referência associada ao Kripke (1980) e Putnam (1985/1975, cap. 12). De acordo com esses, pode-se com sucesso referir a uma entidade apesar da mudança significativa ou até radical na descrição teórica das suas propriedades; isso permite a estabilidade do comprometimento epistêmico quando as teorias mudam ao longo do tempo. Se a teoria causal da referência pode ser aplicada com sucesso nesse contexto, no entanto, é matéria de debate (veja Hardin & Rosenberg 1983, Laudan 1984, Psillos 1999, ch. 12, e Chakravartty 2007a, pp. 52–56).
Realismo estrutural é uma outra visão estimulando a seletividade, mas nesse caso a natureza das entidades inobserváveis que são vistas ceticamente, tendo o realismo reservado a estrutura do campo inobservável, como representado por certas relações descritas por nossas melhores teorias. Todas as muitas versões dessa posição caem dentro de dois campos: o primeiro enfatiza uma distinção epistêmica entre noções de estrutura e natureza; o segundo enfatiza uma tese ontológica. A visão epistêmica mantém que nossas melhores teorias provavelmente não descrevem corretamente a natureza das entidades inobserváveis, mas com sucesso descrevem certas relações entre elas. A visão ontológica sugere que os realistas devem inclinar-se apenas para o conhecimento de estruturas, porque o próprio conceito de entidades que permanece nas relações é metafisicamente problemático - não existem, de fato, tais coisas, ou se existem, eles são em algum sentido emergentes ou dependentes dessas relações. Um desafio para a versão epistêmica é articular um conceito de estrutura que faça efetivamente distinção da natureza das entidades. A versão ontológica encara o desafio de clarear a noção relevante de emergência e/ou dependência. (Sobre realismo estrutural epistêmico, veja Worrall 1989, Psillos 1995, 2006, Votsis 2003, e Morganti 2004; sobre o realismo estrutural ontológico, veja French 1998, 2006, Ladyman 1998, Psillos 2001, 2006, Ladyman & Ross 2007, e Chakravartty 2007a, cap. 3).
Texto orginal de autoria de Anjan Chakravartty.
Parabéns pelo trabalho de tradução.
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