quarta-feira, 1 de março de 2017

Realismo Científico (Parte 4 de 4)

4.ANTIRREALISMO: FRUSTRAÇÕES PARA O REALISMO CIENTÍFICO


4.1 Empirismo

O termo antirrealismo engloba qualquer posição que é oposta ao realismo juntamente com uma ou mais das dimensões examinadas na seção 1.2: o comprometimento metafísico à existência de uma realidade independente da mente; o comprometimento semântico para interpretar as teorias literalmente ou com valor aparente; e o comprometimento epistemológico considerando as teorias como construindo conhecimento de ambos os observáveis e os inobserváveis. Como resultado, o que é de se esperar, existem muitas maneiras diferentes de ser um antirrealista, e muitas posições diferentes são qualificadas como antirrealismo. No desenvolvimento histórico do realismo, é defensável que a mais importante força do antirrealismo tem sido variedades do empirismo no qual, dado a sua ênfase na experiência como uma fonte de tema de conhecimento, são naturalmente colocadas contra a ideia de conhecimento dos inobserváveis. É possível ser um empirista amplamente falando de uma maneira consistente com o realismo - por exemplo, pode-se endossar a ideia de que o conhecimento do mundo provém de investigação empírica, mas alegar com base nisso, pode-se justificavelmente inferir certas coisas sobre os inobserváveis. Na primeira metade do século XX, no entanto, o empirismo veio predominantemente nas variadas formas de "instrumentalismo': a visão de que teorias são meramente instrumentos para predizer fenômenos observáveis ou sistematizar relatórios de observação.

 Tradicionalmente, o instrumentalismo sustenta que os termos para os inobserváveis, por eles mesmos, não tem significado; construído literalmente, afirmações envolvendo eles não são sequer candidatos à verdade ou falsidade. Os mais influentes defensores do instrumentalismo são os empiristas lógicos (ou positivas lógicos), incluindo Carnap e Hempel, famosamente associados com o grupo de filósofos e cientistas como também outros importantes contribuidores do Circulo de Viena. A fim de racionalizar o uso ubíquo dos termos os quais podem ser tomados referindo-se aos inobserváveis no discurso científico, eles adotam uma semântica não literal de acordo com estes termos adquirindo significado ao serem associados com os termos observáveis (por exemplo, "elétron" pode significar "faixa branca em uma câmera de nuvem"), ou com procedimentos laboratoriais demonstráveis (uma visão chamada "operacionalismo"). Dificuldades insuperáveis com essa semântica conduziu no fim das contas (em grande medida) no declínio do empirismo lógico e o crescimento do realismo. O contraste aqui não é meramente na semântica e epistemologia: um número de empiristas lógicos também sustentam a visão neo-kantiana de que questões ontológicas "externas" às molduras para o conhecimento representado por teorias também são sem significado (a escolha de uma moldura é feita somente em fundamentos pragmáticos), assim rejeitando a dimensão metafísica do realismo (como em Carnap 1950). (Duhem 1954/1906 foi influente com respeito ao instrumentalismo; para uma crítica da semântica do empirismo lógico, veja Brown 1977, cap. 3; sobre o empirismo lógico de forma mais geral, veja Giere & Richardson 1997 e Richardson & Uebel 2007; sobre a leitura neo-kantiana, veja Richardson 1998 e Friedman 1999.)

Van Fraassen (1980) reinventou o empirismo no contexto científico, evadindo muitos dos desafios encarados pelos empiristas lógicos, por adotar uma semântica realista. Sua posição, empirismo construtivo, sustenta que o objetivo da ciência é a adequação empírica, onde "uma teoria é exatamente empiricamente adequada se o que ela diz sobre as coisas observáveis e os eventos no mundo é verdadeira" (p. 12; p. 64 dá uma definição mais técnica nos termos de uma incorporação das estruturas observáveis nos modelos científicos). Crucialmente, ao contrário do instrumentalismo tradicional e empirismo lógico, o empirismo construtivo interpreta as teorias precisamente da mesma maneira que o realismo. O antirrealismo da posição é inteiramente devido a sua epistemologia - a posição recomenda crença nas melhores teorias somente na medida em que elas descrevem os fenômenos observáveis, e uma atitude agnóstica com respeito a qualquer coisa inobservável. O empirista construtivo assim reconhece as reivindicações sobre os inobserváveis como verdadeiros ou falsos, mas não vai tão longe ao ponto de acreditar ou não nelas. Na defesa de uma restrição da crença no domínio do observável, a posição é similar a tradição instrumentalista, e é por essa razão que algumas vezes  a visão é descrita como uma forma de instrumentalismo. (Para elaborações do ponto de vista, veja Van Fraassen 1985, 2001, e um estudo útil, Rosen 1994.) Há também afinidades com a ideia de ficcionalismo, segundo o qual as coisas no mundo são e se comportam como se as nossas melhores teorias científicas são verdades (Vaihinger 1923/1911, Fine 1993).


4.2 Historicismo

O colapso do programa do empirismo lógico foi em parte facilitado por uma virada histórica na filosofia da ciência nos anos 60, associado com autores tais como Kuhn, Feyerabend, e Hanson. O muito influente trabalho de Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas, teve uma função significativa em estabilizar um duradouro interesse numa forma de historicismo sobre o conhecimento científico, particularmente entre àqueles interessados na natureza da prática científica. Um princípio fundamental da virada histórica foi tomar a história da ciência e sua prática de maneira séria por prover descrições do conhecimento científico in situ. Kuhn argumentou que os frutos de tal história iluminam um padrão recorrente: períodos da então chamada ciência normal, frequentemente bastante longa em duração (considere, por exemplo, os períodos dominados pela física clássica, ou física relativista), pontuadas por revoluções as quais conduzem as comunidades científicas de um período de ciência normal a outro. As implicações para o realismo nesse quadro derivam da caracterização de Kuhn de conhecimento em ambos os lados de uma divisão revolucionária. Dois diferentes períodos de ciência normal, diz ele, são "incomensuráveis" um com o outro, de tal maneira que surge um mundo importantemente diferente depois da revolução (o fenômeno da "mudança de mundo"). (Entre os muitos detalhados estudos desses tópicos, veja Horwich 1993, Hoyningen-Huene 1993, Sankey 1994, e Bird 2000.)

A noção de incomensurabilidade concerne a comparação de teorias em vigor durante diferentes períodos de ciência normal. Kuhn afirma que se duas teorias são incomensuráveis, elas não são comparáveis de uma maneira que seria permitido o julgamento de que uma é epistemicamente superior a outra, porque diferentes períodos de ciência normal são caracterizadas por diferentes "paradigmas" (comprometimentos às representações simbólicas dos fenômenos, crenças metafísicas, valores, e técnicas de resolver problemas). Como consequência, cientistas em diferentes períodos de ciência normal geralmente empregam diferentes métodos e critérios, vivenciam o mundo diferentemente via percepções com "carregamento teórico", e mais importante para Kuhn (1983), difere com respeito aos significados de seus termos. Essa é uma versão do holismo ou contextualismo de significado, segundo o qual o significado de um termo ou conceito é esgotado por suas conexões a outros termos e conceitos dentro de um paradigma. Uma mudança em qualquer parte dessa cadeia implica uma mudança no significado por inteiro - o termo "massa", por exemplo, tem significados diferentes no contexto da física clássica e física relativista. Assim, qualquer julgamento no sentido de que a última caracterização da massa está perto da verdade, ou até que as teorias relevantes descrevam a mesma propriedade, é consideravelmente confuso: a massa divide-se entre dois conceitos diferentes os quais podem somente ser entendido apropriadamente de uma maneira historicizada, da perspectiva dos paradigmas no qual elas ocorrem.

As mudanças na percepção, conceitualização, e linguagem que Kuhn associou com mudanças de paradigma também deu incentivo a sua noção de mudança de mundo que estende ainda mais o contraste da abordagem historicista com o realismo. Há um importante sentido, ele sustenta, no qual depois de uma revolução científica, os cientistas vivem em um mundo diferente. Isso é uma célebre observação enigmática na Estrutura (pp. 111, 121, 150), mas Kuhn (200, p. 264) mais tarde dá uma virada neo-kantiana: paradigmas funcionam de modo a criar a realidade dos fenômenos científicos, por isso permite cientistas engajarem-se com essa realidade. Nessa visão, pareceria que não somente o significado, mas também os referentes dos termos são forçados por fronteiras paradigmáticas. E assim, refletindo um interesse paralelo com o empirismo lógico neo-kantiano, a ideia de um mundo transcendente-paradigmático o qual é investigado por cientistas, e sobre o qual pode ter conhecimento, não tem conteúdo cognitivo óbvio. Nesse quadro, a realidade empírica é estruturada por paradigmas científicos, e isso viola o comprometimento metafísico do realismo à existência de um mundo independente da mente.


4.3 Construtivismo Social

Um resultado da virada histórica na filosofia da ciência e sua ênfase na prática científica foi um foco nas complexas interações sociais que inevitavelmente cercam e infundem a produção de conhecimento científico. Relações entre experts, seus estudantes, e o público, colaboração e competição entre indivíduos e instituições, e contextos sociais, econômicos e políticos tornaram-se os assuntos de uma abordagem para estudar as ciências conhecidas como a sociologia do conhecimento científico, ou SSK [sociology of scientific knowledge]. Embora na teoria, um comprometimento para estudar as ciências de uma perspectiva sociológica é interpretável de uma maneira a ser neutra quanto ao realismo (Lewens 2005), na prática, a maioria das explicações da ciência inspiradas pelo SSK são implicitamente ou explicitamente antirrealista. Esse antirrealismo na prática vem de uma sugestão comum que uma vez apreciada a função que fatores sociais (usando isso como um termo genérico para os tipos de interações e contextos indicados acima) desempenham na produção de conhecimento científico, um comprometimento filosófico a alguma forma de "construtivismo social" é inescapável, e esse último compromisso é inconsistente com vários aspectos do realismo.

O termo "construção social" refere-se a algum processo gerador de conhecimento no qual o que conta como um fato é substantivamente determinado por fatores sociais, e no qual diferentes fatores sociais provavelmente gerariam fatos que são inconsistentes com o que é atualmente produzido. A implicação importante aqui é, portanto, uma afirmação contrafactual sobre a dependência dos fatos sobre os fatores sociais. Existem numerosas maneiras no qual determinantes sociais podem ser consistentes com o realismo; por exemplo, fatores sociais podem determinar a direção e metodologias de uma pesquisa permitida, encorajada e consolidada, mas isso por si só não precisa enfraquecer a atitude realista com respeito às produções do trabalho científico. Frequentemente, no entanto, o trabalho no SSK toma a forma de estudos de casos que visam demonstrar como decisões particulares afetam o trabalho científico que é influenciado pelos fatores sociais que, sendo eles diferentes, teriam facilitado resultados que são inconsistentes com àqueles em última análise aceitados como fato científico. Alguns, incluindo proponentes do então chamado Programa Forte no SSK, argumentam que por razões mais gerais, tal contingência factual é inevitável. (Para uma amostra de abordagens influentes para o construtivismo social, veja Latour & Woolgar 1986/1979, Knorr-Cetina 1981, Pickering 1984, Shapin & Schaffer 1985, e Collins & Pinch 1993; sobre o Programa Forte, veja Barnes, Bloor & Henry 1996; para um estudo histórico da transição de Kuhn para SSK e construtivismo social, veja Zammito 2004, caps. 5-7.)

Por fazer os fatores sociais uma inextricável, determinante substantiva  do que conta como verdadeiro ou falso no campo das ciências (e o que mais for), o construtivismo social se opõe a constatação realista de que teorias podem ser entendidas como fornecedoras de conhecimento de um mundo independente da mente. E como na abordagem historicista, noções tais como verdade, referência e ontologia sao aqui relativas aos contextos particulares e não tem alcance de um contexto transcendente. Em particular, o último trabalho de Kuhn e Wittgenstein foram influentes no desenvolvimento de uma doutrina do Programa Forte o "finitismo de significado", segundo o qual os significados de termos são concebidos como instituições sociais: as várias maneiras na qual eles são usados de maneira bem-sucedida na comunicação dentro de uma comunidade linguística. Essa teoria de significados forma a base de um argumento no sentido de que os significados dos termos científicos (inter alia) são produtos de negociação social e não precisam ser fixados ou determinados, o qual mais conflitos com um número de noções realistas, incluindo a ideia de convergência em direção a teorias verdadeiras, melhoras com respeito à ontologia ou verdade aproximada, e referência determinada às entidades, propriedades e relações independentes da mente. O assunto do neo-kantianismo assim emerge de novo, embora sua força nas doutrinas construtivistas variam significativamente (para uma robusta visão finista, veja Kusch 2002, e para um construtivismo mais moderado, veja o "realismo interno" de Putnam (1981, cap.3) e compare Ellis 1988).


4.4 Abordagens Feministas

As críticas feministas estão ligadas tematicamente com o SSK e a formas de construtivismo social enfatizando a função de fatores sociais como determinantes de fatos científicos, mas estendendo a análise de uma maneira mais específica, refletindo preocupações particulares sobre a marginalização de visões baseado no gênero, etnicidade , status socioeconômico, e status político. Nem todas as abordagens feministas são antirrealistas, mas quase todas são normativas, oferecendo prescrições para revisar tanto a prática científica como os conceitos científico tais como objetividade e conhecimento que tem implicações diretas para o realismo. Com respeito a isso é importante distinguir (como originalmente proposto em Harding 1986) entre três amplas abordagens. Empirismo feminista foca na possibilidade de uma crença garantida dentro das comunidades científicas como uma função de transparência e consideração de vieses associados com diferentes visões que entram no trabalho científico. A teoria do ponto de vista investiga a ideia de que o conhecimento científico é inextricavelmente ligado às perspectivas decorrentes de diferenças em tais visões. O feminismo pós-moderno rejeita os conceitos tradicionais de objetividade e verdade universal ou absoluta. (Como é de se esperar, essas visões não são sempre nitidamente distinguíveis; para algumas abordagens influentes, veja Keller 1985, Harding 1986, Haraway 1988, Longino 1990, 2002, Alcoff & Potter 1993, e Nelson & Nelson 1996.)

A noção de objetividade tem um número de conotações tradicionais - incluindo indiferença (afastamento, falta de viés) e universalidade (independência de qualquer perspectiva particular ou ponto de vista) - os quais são comumente associados com conhecimento de um mundo independente da mente. As críticas feministas são quase unânime na rejeição do conhecimento científico no sentido de indiferença, oferecendo estudos de casos que visam demonstrar como a presença de (por exemplo) viés androcêntrico em uma comunidade científica pode conduzir para a aceitação de uma teoria em detrimento de outras (veja Longino 1990, cap. 6, para dois casos detalhados). Indiscutivelmente, a falha da objetividade nesse sentido é consistente com o realismo em princípio, mas somente sob certas condições. Se o viés relevante aqui é epistemicamente neutro (isto é, se a própria avaliação da evidência científica não é influenciada de uma maneira ou de outra), então o realismo permanece pelo menos como uma das interpretações viáveis dos resultados do trabalho científico. Em um caso mais interessante onde o viés é epistemicamente pretensioso, as perspectivas para o realismo são diminuídas, mas pode ser aprimorada por uma infraestrutura científica que funciona para trazê-la sob escrutínio (por meios de, por exemplo, revisão por pares efetiva, genuína consideração da visão das minorias, etc.), assim facilitando as medidas corretivas onde forem apropriadas. A controvérsia de que as ciências não geralmente exemplificam tal infraestrutura é um motivo para a normatividade que o feminismo empirista luta.

O desafio para a objetividade no sentido da universalidade ou independência de perspectivas é até mais difícil de conciliar com a possibilidade do realismo. Em uma linha Marxista, algumas teoristas do ponto de vista argumentam que certas perspectivas são epistemicamente privilegiadas no campo da ciência; em outras palavras, perspectivas subjugadas são epistemicamente privilegiadas em comparação às perspectivas dominantes em face de um profundo insight proporcionado a primeira (exatamente como o proletariado tem um profundo conhecimento do potencial humano mais do que o típico conhecimento superficial daqueles no poder). Outros retratam privilégio epistêmico de uma maneira mais despedaçada ou deflacionária, sugerindo que nenhuma visão pode ser estabelecida como superior a outra por qualquer padrão global de avaliação epistemológica. Essa visão é mais explícita no feminismo pós-moderno, o qual adota um completo relativismo com respeito a verdade (e presumivelmente a verdade aproximada, ontologia científica, e outras noções centrais para as várias descrições do realismo). Como no caso do Programa Forte no SSK, verdade e padrões epistêmicos são aqui definidos somente dentro do contexto de uma perspectiva, e consequentemente não podem ser interpretado por nenhuma espécie de contexto transcendente ou independente da mente.


4.5 Pragmatismo, Quietismo, e Paralisia Dialética

Não é incomum ouvir filósofos repararem que o diálogo entre várias formas de realismo e antirrealismo inspecionadas nesse artigo mostram cada sintoma de uma disputa filosófica perene. As questões contestadas variam de forma tão ampla  e extraem tantas intuições competidoras (sobre as quais, discutivelmente, pessoas racionais podem discordar) que alguns questionam se uma solução é sequer possível. Esse prognóstico de complexidade dialética potencialmente insolúvel é relevante para um número de outras visões na filosofia da ciência, algumas das quais surgem como resposta direta a isso. Por exemplo, Fine (1996/1986, caps. 7–8) argumenta que em última análise, nem o realismo nem o antirrealismo são defensáveis, e recomenda o que ele chama de "atitude ontológica natural" (NOA [natural ontological attitude]) (veja Rouse 1988 e 1991 para uma detalhada exploração dessa visão). NOA pretende incluir um neutro núcleo comum da atitude realista e antirrealista de aceitação de nossas melhores teorias. O erros que ambas as partes cometem, sugere Fine, é adicionar mais diagnósticos epistemológicos e metafísicos para essa posição compartilhada, tais como pronunciamento sobre quais aspectos da ontologia científica deve ser vista como real, quais são os sujeitos adequados de crença, e assim por diante. Outras afirmam que esse tipo de abordagem com relação ao conhecimento científico é não-filosófico ou anti-filosófico, e defendem o compromisso filosófico em debates sobre o realismo (Crasnow 2000, Mcarthur 2006). Musgrave (1989) argumenta que a visão é ou vazia ou colapsa em realismo.

A ideia de colocar o conflito entre abordagens realistas e antirrealistas à ciência de lado é também um tema recorrente na concepção tradicional de pragmatismo e quietismo. Considerando o primeiro, Peirce (1998/1992, in ‘Como Deixar As Nossas Ideias Claras', por exemplo, originalmente publicado em 1878) sustenta que o significado de uma proposição é dado por suas "consequências práticas" para a experiência humana, tais como implicações para a observação ou resolução de problemas. Para James (1979/1907), a utilidade positiva medida nesses termos é o indicador de verdade (onde a verdade é o que quer que será aceito em um limite ideal de investigação cientifica). Muitos dos pontos disputados pelos realistas e antirrealistas - diferenças no comprometimento epistêmico para com as entidades científicas, propriedades e relações baseadas em observabilidade, por exemplo - são efetivamente descartadas nessa visão. Isso é, no entanto, uma forma de antirrealismo nas leituras tradicionais de Peirce e James, uma vez que ambos sugerem que a verdade em um sentido pragmático esgota nossa concepção de realidade, assim ocorrendo a falta de dimensão metafísica do realismo. A noção de quietismo é frequentemente associada com a resposta de Wittgenstein aos problemas filosóficos sobre os quais, sustenta ele, nada de sensato pode ser dito. Isso não é dizer que engajar-se com tais problemas não possa ser do gosto de alguém, mas antes que independentemente do interesse ou falta de interesse de alguém, a disputa em si se preocupa com um pseudo-problema. Blackburn (2002) sugere que as disputas sobre o realismo podem ter essa característica. 

Uma última consideração sobre a putativa insolubilidade dos debates interessados em realismo  foca num certo comprometimento metafilosófico adotado por interlocutores relevantes. Wylie (1986, p. 287), por exemplo, afirma que "as posições mais sofisticadas em ambos os lados agora incorporam concepções autojustificadas do objetivo da filosofia e dos padrões de adequação apropriado para julgar teorias filosóficas da ciência". Isso é, diferentes suposições ab initio considerando quais tipos de inferências são legitimas, quais tipos de evidência razoavelmente amparam crenças, se há uma demanda genuína para a explicação de fenômenos observáveis em termos de realidades subjacentes, e assim por diante, pode tornar alguns argumentos entre realistas e antirrealistas uma petição de princípio. Esse diagnóstico é defensavelmente facilitado pela sugestão de van Fraassen (1989, pp. 170–176, 1994, p. 182) que nem o realismo nem o antirrealismo (no seu caso, empirismo) são descartados por plausíveis cânones de racionalidade; cada um é sustentado por uma concepção diferente de quanto risco epistêmico alguém deve tomar no momento de formar crenças baseadas em suas evidências. Uma intrigante questão então emerge de como as disputas em torno do realismo e do antirrealismo são solucionáveis em princípio, ou se, em última análise, a consistência interna e formulação coerente dessas posições devem ser consideradas como irreconciliáveis mas, no entanto, interpretações permissíveis do conhecimento científico. (Chakravartty 2007a, pp. 16–26).


Versão completa em pdf: Realismo Científico
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