domingo, 12 de março de 2017

Fé (Parte 2 de 10)

3. Fé como conhecimento

Qual tipo de componente cognitivo pertence à fé, então? Um modelo identifica a fé como conhecimento de verdades específicas, reveladas por Deus. Tal modelo tem recebido proeminente defesa recente no trabalho de Alvin Plantinga, que propõe um modelo de fé no qual ele segue a tradição dos reformadores, principalmente João Calvino (veja Plantinga 200, 168-86). Calvino define a fé assim: “um firme e certo conhecimento da benevolência de Deus com respeito a nós, fundado na verdade da livremente dada promessa em Cristo, revelado em nossas mentes e selado em nossos corações através do Espírito Santo” (João Clavino, Institutes III, ii, 7, 551, citado por Plantinga (2000, 244)).


Apelo a uma faculdade cognitiva especial

Epistemologias “reformadas” têm apelado a uma epistemologia externalista a fim de sustentar que a fé teísta pode ser justificada embora sua verdade não é mais do que basicamente evidente para o crente – isto é, sua verdade não é racionalmente inferível de outras, mais básicas, crenças, mas é estabelecida por ser imediatamente evidente na experiência do crente (veja Plantinga e Wolterstorff 1983, Alston 1991, Plantinga 2000). Na versão de Plantinga, crenças teístas contam como conhecimento porque elas são produzidas pela operação de uma faculdade cognitiva especial cujo design funcional encaixa para o propósito de gerar crenças verdades sobre Deus. Plantinga chama isso de sensus divinitatis, usando o termo de Calvino. (Para uma discussão da extensão a qual o uso de Plantinga do termo conforme o próprio uso do Calvino ver Jeffrey 1997 e Helm 1998.) Essa faculdade quase-perceptual bate com os critérios funcionais como um mecanismo que confere “garantia” (onde garantia é o que quer que deve ser adicionado a uma crença verdadeira para produzir conhecimento) e, concedida a verdade do teísmo, isso produz conhecimento porque Deus o desenha justamente para esse propósito. Em defesa especificamente da crença cristã, Plantinga argumenta que o mesmo status de conferência de garantia pertence a operação do Espírito Santo em fazer as grandes verdades do Evangelho diretamente conhecidas pelo crente.


A acolhedora certeza da fé

Esse apelo a uma “alta” faculdade cognitiva dada por Deus é encontrado (no início do século XII) em Libertação do Erro [tradução direta] de Al-Ghazali, onde é provido a chave para a resolução “Sufi” de sua crise religiosa e suas dúvidas céticas sobre a libertação da percepção dos sentidos e da desassistida razão humana. Fé é assim entendida como um tipo de conhecimento tratada por uma certeza que exclui dúvidas. Mas a fé não será exclusivamente cognitiva, se, como na definição de Calvino, o conhecimento-fé não é somente “revelado a nossas mentes” mas também “selada em nossos corações”. Pois nesse modelo de fé irá também ter um componente afetivo/avaliativo que inclui um acolhedor conhecimento recebido.


Os aspectos práticos da fé no modelo “conhecimento especial”

Esse modelo de fé como conhecimento especial, certo e acolhedor, exibe a fé como essencialmente algo a ser recebido. Não obstante, o modelo pode admitir um componente prático, porquanto uma resposta ativa é requerida para a recepção do presente divino. Assim o componente prático é implicado pela real possibilidade de que a fé pode ser resistida: de fato, cristãos podem sustentar que em nosso estado pecaminoso nós vamos inevitavelmente oferecer uma resistência à fé que pode ser superada somente pela graça de Deus. Isso é, no entanto, um próximo passo para as pessoas de fé colocar seus conhecimentos revelados em prática pela sua confiança de suas vidas a Deus e procurar obedecer a sua vontade. Posto o modelo “conhecimento especial” de fé, no entanto, essa atividade conta como “agir” na sua fé em vez de uma parte da fé em si mesma. Pessoas de fé assim agem “em”, “através” ou “pela” fé: mas, nesse modelo, sua própria fé é o acolhedor conhecimento revelado no qual eles agem.

Link para o capítulo traduzido: 

Autor do verbete: John Bishop


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