4. Fé
e razão: a epistemologia da fé
A
fé parece envolver algum tipo de ventura,
ainda que
se fale
de um "salto de fé" pode não ser algo totalmente
adequado. É assim amplamente sustentado que a fé vai além do que é
ordinariamente razoável,
nesse sentido que envolve aceitar o que não pode ser estabelecido
como verdadeiro através do exercício próprio
das nossas naturalmente dotadas faculdades cognitivas humanas – e
isso pode ser sustentado como um aspecto essencial da fé. Como Kant
famosamente relata, no Prefácio da
Segunda Edição de sua Crítica da Razão
Pura: "Tive
... de suprimir o saber
para encontrar lugar para a crença"[1] (Kant
1787/1933, 29). Também, no
entanto, filósofos teístas tipicamente desejam mostrar que a fé
não é "contrária à razão". Nos modelos de fé que
tomam o componente cognitivo como central,
e constroem o objeto da fé como proposicional, a fé razoável
defensável precisa conformar-se a um princípio evidencialista,
geralmente pensado essencial a racionalidade, requerendo
comprometimentos de crença de acordo com a extensão do apoio para a
sua verdade dado pela evidência total disponível a
alguém. A
aventuridade
[venturesomeness]
da fé é assim em tensão com a sua razoabilidade, e modelos de fé
diferem na maneira que eles negociam
essa tensão através de
uma
tomada de
uma
instância particular na
"fé e razão". Outro princípio classificatório, então,
é em termos
do tipo de epistemologia da fé que
cada
modelo particular gera.
A
epistemologia do modelo "especial de conhecimento"
O modelo
"conhecimento especial" da fé gera uma epistemologia sob a
qual, embora faculdades cognitivas ordinárias e fontes de evidências
não produzam
conhecimento seguro das verdades teístas, existe uma faculdade
cognitiva "altíssima" que nitidamente
conserta o defeito. Esse modelo parece assim assegurar a
racionalidade da fé: se a fé consiste em crenças que tem o status
de conhecimento, certamente a fé não pode falhar em ser racional.
E, uma vez que as libertações da faculdade cognitiva especial são
incluídas na evidência experiencial básica
do crente, o requerimento evidencial na crença racional é
certamente sanada. (Note que Plantinga originalmente expressou sua
defesa da crença teístas "apropriadamente básica"
em termos da racionalidade da crença em
Deus "sem qualquer evidência ou argumento" (Plantinga
1983, 17). Ele respeita o requerimento evidencial, no entanto,
sustentando que seu requetimento pode ser totalmente agrupado através
do que é básico, não-inferencial, evidente na experiência do
crente. Por isso a insistência de Plantinga de que sua epistemologia
reformada não é fideísta (Plantinga 2000, 263).
Fé
refletida e a questão da autorização
A
consideração acima pode aspirar a conquistar a alta base no debate
"fé e razão" para o modelo "conhecimento especial".
Não é claro, no entanto, que essa aspiração pode finalmente ser
atingida. Da
perspectiva das reflexivas pessoas de fé (ou aspirante a fé), a
questão da autorização
surge:
são elas
racionalmente, epistemicamente – até
moralmente – autorizadas
a adotar ou continuar com a sua fé? Essa questão será
existencialmente importante, uma vez que a
fé não contará como do tipo exemplificado pela fé religiosa salvo
se
seu comprometimento faça
uma diferença
significativa em como alguém vive a sua vida. Crentes reflexivos que
estão cientes das muitas opções para fé, e a possibilidade de má
orientação e até pernicioso comprometimentos-fé,
desejarão estar satisfeitos de que eles estão justificados
em
ter sua fé. As tradições teístas sustentam um medo profundo de
idolatria – de dando a
"preocupação última" (Tillich 1957/2001) a um
objeto não merecedor disso. O desejo de estar seguro da autorização
da fé é assim não meramente imposto externamente pelo
comprometimento a valores da crítica filosófica: é uma demanda
interna da integridade da fé teísta em si. Defensavelmente, crentes
devem mesmo tomar seriamente a possibilidade de que o Deus que eles
vem adorando não é, no fim das contas, o verdadeiro Deus (Johnston
2009). Mas, para essa preocupação ser reconhecida, haverá
necessidade das condições suficientes para a fé justificada que
são "internalistas" – isto é, condições cuja obtenção
é, pelo menos indiretamente se não diretamente, acessível
aos próprios crentes. Estas condições são amplamente assumidas em
incluir um requerimento evidencialista de que a fé é justificada
somente se a verdade do seu conteúdo cognitivo é adequadamente
apoiado pela evidência disponível.
O
modelo "conhecimento" como deixando a questão da
autorização sem resposta
Pode-se
argumentar, no entanto, que, se o modelo "conhecimento especial"
é correto, aqueles que procuram estabelecer um requerimento
evidencialista serão incapazes de satisfazer a si próprios da sua
autorização a sua fé. Verdades teístas podem ser diretamente
reveladas, e experienciadas como imediatamente evidentes, ainda, sobre
reflexão, pode-se duvidar se tais experiências são genuinamente
revelatórias uma vez que interpretações "naturalistas"
competidoras daquelas experiências parecem disponíveis. Pode ser
verdade, como sustenta a epistemologia reformada de Plantinga, que se
Deus existe tais experiências estão
de acordo com o critério externalista para transferir conhecimento,
mesmo embora a verdade das crenças em questão permaneçam abertas a
dúvida do "internalista"
reflexivo. Em uma abordagem externalista, isto é, pode-se não ter
evidência suficiente independente para confirmar que alguém tem
conhecimento de que Deus existe enquanto
de fato possuí esse mesmo conhecimento.
E pode-se assim refutar um objetor que afirma que sem evidência
adequada
não se pode genuinamente saber. Mas essa consideração é ainda
insuficiente para assegurar a autorização à fé teísta – se,
como pode ser argumentado, essa autorização requer que alguém
tenha evidência adequada para
justificar o comprometimento à verdade de que Deus existe – mas é
precisamente a autorização para acreditar que Deus existe que está
em questão (Kenny 1992, 71; Bishop and Aijaz 2004). Para uma maior
discussão da possibilidade do conhecimento religioso que, inter
alia, endossa
o presente ponto, veja Zagzebski 2010.
[1]
N.T.:
Tradução retirada de Kant,
Immanuel, 1787/2001, Crítica
da Razão Pura, quinta
ed.,
Manuela
Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão (trad.),
Fundação
Calouste
Gulbenkia.
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