quinta-feira, 16 de março de 2017

Fé (Parte 3 de 10)

4. Fé e razão: a epistemologia da fé

A fé parece envolver algum tipo de ventura, ainda que se fale de um "salto de fé" pode não ser algo totalmente adequado. É assim amplamente sustentado que a fé vai além do que é ordinariamente razoável, nesse sentido que envolve aceitar o que não pode ser estabelecido como verdadeiro através do exercício próprio das nossas naturalmente dotadas faculdades cognitivas humanas – e isso pode ser sustentado como um aspecto essencial da fé. Como Kant famosamente relata, no Prefácio da Segunda Edição de sua Crítica da Razão Pura: "Tive ... de suprimir o saber para encontrar lugar para a crença"[1] (Kant 1787/1933, 29). Também, no entanto, filósofos teístas tipicamente desejam mostrar que a fé não é "contrária à razão". Nos modelos de fé que tomam o componente cognitivo como central, e constroem o objeto da fé como proposicional, a fé razoável defensável precisa conformar-se a um princípio evidencialista, geralmente pensado essencial a racionalidade, requerendo comprometimentos de crença de acordo com a extensão do apoio para a sua verdade dado pela evidência total disponível a alguém. A aventuridade [venturesomeness] da fé é assim em tensão com a sua razoabilidade, e modelos de fé diferem na maneira que eles negociam essa tensão através de uma tomada de uma instância particular na "fé e razão". Outro princípio classificatório, então, é em termos do tipo de epistemologia da fé que cada modelo particular gera.

A epistemologia do modelo "especial de conhecimento"

O modelo "conhecimento especial" da fé gera uma epistemologia sob a qual, embora faculdades cognitivas ordinárias e fontes de evidências não produzam conhecimento seguro das verdades teístas, existe uma faculdade cognitiva "altíssima" que nitidamente conserta o defeito. Esse modelo parece assim assegurar a racionalidade da fé: se a fé consiste em crenças que tem o status de conhecimento, certamente a fé não pode falhar em ser racional. E, uma vez que as libertações da faculdade cognitiva especial são incluídas na evidência experiencial básica do crente, o requerimento evidencial na crença racional é certamente sanada. (Note que Plantinga originalmente expressou sua defesa da crença teístas "apropriadamente básica" em termos da racionalidade da crença em Deus "sem qualquer evidência ou argumento" (Plantinga 1983, 17). Ele respeita o requerimento evidencial, no entanto, sustentando que seu requetimento pode ser totalmente agrupado através do que é básico, não-inferencial, evidente na experiência do crente. Por isso a insistência de Plantinga de que sua epistemologia reformada não é fideísta (Plantinga 2000, 263).

Fé refletida e a questão da autorização

A consideração acima pode aspirar a conquistar a alta base no debate "fé e razão" para o modelo "conhecimento especial". Não é claro, no entanto, que essa aspiração pode finalmente ser atingida. Da perspectiva das reflexivas pessoas de fé (ou aspirante a fé), a questão da autorização surge: são elas racionalmente, epistemicamente – até moralmente – autorizadas a adotar ou continuar com a sua fé? Essa questão será existencialmente importante, uma vez que a fé não contará como do tipo exemplificado pela fé religiosa salvo se seu comprometimento faça uma diferença significativa em como alguém vive a sua vida. Crentes reflexivos que estão cientes das muitas opções para fé, e a possibilidade de má orientação e até pernicioso comprometimentos-fé, desejarão estar satisfeitos de que eles estão justificados em ter sua fé. As tradições teístas sustentam um medo profundo de idolatria – de dando a "preocupação última" (Tillich 1957/2001) a um objeto não merecedor disso. O desejo de estar seguro da autorização da fé é assim não meramente imposto externamente pelo comprometimento a valores da crítica filosófica: é uma demanda interna da integridade da fé teísta em si. Defensavelmente, crentes devem mesmo tomar seriamente a possibilidade de que o Deus que eles vem adorando não é, no fim das contas, o verdadeiro Deus (Johnston 2009). Mas, para essa preocupação ser reconhecida, haverá necessidade das condições suficientes para a fé justificada que são "internalistas" – isto é, condições cuja obtenção é, pelo menos indiretamente se não diretamente, acessível aos próprios crentes. Estas condições são amplamente assumidas em incluir um requerimento evidencialista de que a fé é justificada somente se a verdade do seu conteúdo cognitivo é adequadamente apoiado pela evidência disponível.

O modelo "conhecimento" como deixando a questão da autorização sem resposta

Pode-se argumentar, no entanto, que, se o modelo "conhecimento especial" é correto, aqueles que procuram estabelecer um requerimento evidencialista serão incapazes de satisfazer a si próprios da sua autorização a sua fé. Verdades teístas podem ser diretamente reveladas, e experienciadas como imediatamente evidentes, ainda, sobre reflexão, pode-se duvidar se tais experiências são genuinamente revelatórias uma vez que interpretações "naturalistas" competidoras daquelas experiências parecem disponíveis. Pode ser verdade, como sustenta a epistemologia reformada de Plantinga, que se Deus existe tais experiências estão de acordo com o critério externalista para transferir conhecimento, mesmo embora a verdade das crenças em questão permaneçam abertas a dúvida do "internalista" reflexivo. Em uma abordagem externalista, isto é, pode-se não ter evidência suficiente independente para confirmar que alguém tem conhecimento de que Deus existe enquanto de fato possuí esse mesmo conhecimento. E pode-se assim refutar um objetor que afirma que sem evidência adequada não se pode genuinamente saber. Mas essa consideração é ainda insuficiente para assegurar a autorização à fé teísta – se, como pode ser argumentado, essa autorização requer que alguém tenha evidência adequada para justificar o comprometimento à verdade de que Deus existe – mas é precisamente a autorização para acreditar que Deus existe que está em questão (Kenny 1992, 71; Bishop and Aijaz 2004). Para uma maior discussão da possibilidade do conhecimento religioso que, inter alia, endossa o presente ponto, veja Zagzebski 2010.


[1] N.T.: Tradução retirada de Kant, Immanuel, 1787/2001, Crítica da Razão Pura, quinta ed., Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão (trad.), Fundação Calouste Gulbenkia.

Link para o capítulo traduzido: 

Autor do verbete: John Bishop


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