quinta-feira, 16 de março de 2017

Fé (Parte 3 de 10)

4. Fé e razão: a epistemologia da fé

A fé parece envolver algum tipo de ventura, ainda que se fale de um "salto de fé" pode não ser algo totalmente adequado. É assim amplamente sustentado que a fé vai além do que é ordinariamente razoável, nesse sentido que envolve aceitar o que não pode ser estabelecido como verdadeiro através do exercício próprio das nossas naturalmente dotadas faculdades cognitivas humanas – e isso pode ser sustentado como um aspecto essencial da fé. Como Kant famosamente relata, no Prefácio da Segunda Edição de sua Crítica da Razão Pura: "Tive ... de suprimir o saber para encontrar lugar para a crença"[1] (Kant 1787/1933, 29). Também, no entanto, filósofos teístas tipicamente desejam mostrar que a fé não é "contrária à razão". Nos modelos de fé que tomam o componente cognitivo como central, e constroem o objeto da fé como proposicional, a fé razoável defensável precisa conformar-se a um princípio evidencialista, geralmente pensado essencial a racionalidade, requerendo comprometimentos de crença de acordo com a extensão do apoio para a sua verdade dado pela evidência total disponível a alguém. A aventuridade [venturesomeness] da fé é assim em tensão com a sua razoabilidade, e modelos de fé diferem na maneira que eles negociam essa tensão através de uma tomada de uma instância particular na "fé e razão". Outro princípio classificatório, então, é em termos do tipo de epistemologia da fé que cada modelo particular gera.

A epistemologia do modelo "especial de conhecimento"

O modelo "conhecimento especial" da fé gera uma epistemologia sob a qual, embora faculdades cognitivas ordinárias e fontes de evidências não produzam conhecimento seguro das verdades teístas, existe uma faculdade cognitiva "altíssima" que nitidamente conserta o defeito. Esse modelo parece assim assegurar a racionalidade da fé: se a fé consiste em crenças que tem o status de conhecimento, certamente a fé não pode falhar em ser racional. E, uma vez que as libertações da faculdade cognitiva especial são incluídas na evidência experiencial básica do crente, o requerimento evidencial na crença racional é certamente sanada. (Note que Plantinga originalmente expressou sua defesa da crença teístas "apropriadamente básica" em termos da racionalidade da crença em Deus "sem qualquer evidência ou argumento" (Plantinga 1983, 17). Ele respeita o requerimento evidencial, no entanto, sustentando que seu requetimento pode ser totalmente agrupado através do que é básico, não-inferencial, evidente na experiência do crente. Por isso a insistência de Plantinga de que sua epistemologia reformada não é fideísta (Plantinga 2000, 263).

Fé refletida e a questão da autorização

A consideração acima pode aspirar a conquistar a alta base no debate "fé e razão" para o modelo "conhecimento especial". Não é claro, no entanto, que essa aspiração pode finalmente ser atingida. Da perspectiva das reflexivas pessoas de fé (ou aspirante a fé), a questão da autorização surge: são elas racionalmente, epistemicamente – até moralmente – autorizadas a adotar ou continuar com a sua fé? Essa questão será existencialmente importante, uma vez que a fé não contará como do tipo exemplificado pela fé religiosa salvo se seu comprometimento faça uma diferença significativa em como alguém vive a sua vida. Crentes reflexivos que estão cientes das muitas opções para fé, e a possibilidade de má orientação e até pernicioso comprometimentos-fé, desejarão estar satisfeitos de que eles estão justificados em ter sua fé. As tradições teístas sustentam um medo profundo de idolatria – de dando a "preocupação última" (Tillich 1957/2001) a um objeto não merecedor disso. O desejo de estar seguro da autorização da fé é assim não meramente imposto externamente pelo comprometimento a valores da crítica filosófica: é uma demanda interna da integridade da fé teísta em si. Defensavelmente, crentes devem mesmo tomar seriamente a possibilidade de que o Deus que eles vem adorando não é, no fim das contas, o verdadeiro Deus (Johnston 2009). Mas, para essa preocupação ser reconhecida, haverá necessidade das condições suficientes para a fé justificada que são "internalistas" – isto é, condições cuja obtenção é, pelo menos indiretamente se não diretamente, acessível aos próprios crentes. Estas condições são amplamente assumidas em incluir um requerimento evidencialista de que a fé é justificada somente se a verdade do seu conteúdo cognitivo é adequadamente apoiado pela evidência disponível.

O modelo "conhecimento" como deixando a questão da autorização sem resposta

Pode-se argumentar, no entanto, que, se o modelo "conhecimento especial" é correto, aqueles que procuram estabelecer um requerimento evidencialista serão incapazes de satisfazer a si próprios da sua autorização a sua fé. Verdades teístas podem ser diretamente reveladas, e experienciadas como imediatamente evidentes, ainda, sobre reflexão, pode-se duvidar se tais experiências são genuinamente revelatórias uma vez que interpretações "naturalistas" competidoras daquelas experiências parecem disponíveis. Pode ser verdade, como sustenta a epistemologia reformada de Plantinga, que se Deus existe tais experiências estão de acordo com o critério externalista para transferir conhecimento, mesmo embora a verdade das crenças em questão permaneçam abertas a dúvida do "internalista" reflexivo. Em uma abordagem externalista, isto é, pode-se não ter evidência suficiente independente para confirmar que alguém tem conhecimento de que Deus existe enquanto de fato possuí esse mesmo conhecimento. E pode-se assim refutar um objetor que afirma que sem evidência adequada não se pode genuinamente saber. Mas essa consideração é ainda insuficiente para assegurar a autorização à fé teísta – se, como pode ser argumentado, essa autorização requer que alguém tenha evidência adequada para justificar o comprometimento à verdade de que Deus existe – mas é precisamente a autorização para acreditar que Deus existe que está em questão (Kenny 1992, 71; Bishop and Aijaz 2004). Para uma maior discussão da possibilidade do conhecimento religioso que, inter alia, endossa o presente ponto, veja Zagzebski 2010.


[1] N.T.: Tradução retirada de Kant, Immanuel, 1787/2001, Crítica da Razão Pura, quinta ed., Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão (trad.), Fundação Calouste Gulbenkia.

Link para o capítulo traduzido: 

Autor do verbete: John Bishop


domingo, 12 de março de 2017

Fé (Parte 2 de 10)

3. Fé como conhecimento

Qual tipo de componente cognitivo pertence à fé, então? Um modelo identifica a fé como conhecimento de verdades específicas, reveladas por Deus. Tal modelo tem recebido proeminente defesa recente no trabalho de Alvin Plantinga, que propõe um modelo de fé no qual ele segue a tradição dos reformadores, principalmente João Calvino (veja Plantinga 200, 168-86). Calvino define a fé assim: “um firme e certo conhecimento da benevolência de Deus com respeito a nós, fundado na verdade da livremente dada promessa em Cristo, revelado em nossas mentes e selado em nossos corações através do Espírito Santo” (João Clavino, Institutes III, ii, 7, 551, citado por Plantinga (2000, 244)).


Apelo a uma faculdade cognitiva especial

Epistemologias “reformadas” têm apelado a uma epistemologia externalista a fim de sustentar que a fé teísta pode ser justificada embora sua verdade não é mais do que basicamente evidente para o crente – isto é, sua verdade não é racionalmente inferível de outras, mais básicas, crenças, mas é estabelecida por ser imediatamente evidente na experiência do crente (veja Plantinga e Wolterstorff 1983, Alston 1991, Plantinga 2000). Na versão de Plantinga, crenças teístas contam como conhecimento porque elas são produzidas pela operação de uma faculdade cognitiva especial cujo design funcional encaixa para o propósito de gerar crenças verdades sobre Deus. Plantinga chama isso de sensus divinitatis, usando o termo de Calvino. (Para uma discussão da extensão a qual o uso de Plantinga do termo conforme o próprio uso do Calvino ver Jeffrey 1997 e Helm 1998.) Essa faculdade quase-perceptual bate com os critérios funcionais como um mecanismo que confere “garantia” (onde garantia é o que quer que deve ser adicionado a uma crença verdadeira para produzir conhecimento) e, concedida a verdade do teísmo, isso produz conhecimento porque Deus o desenha justamente para esse propósito. Em defesa especificamente da crença cristã, Plantinga argumenta que o mesmo status de conferência de garantia pertence a operação do Espírito Santo em fazer as grandes verdades do Evangelho diretamente conhecidas pelo crente.


A acolhedora certeza da fé

Esse apelo a uma “alta” faculdade cognitiva dada por Deus é encontrado (no início do século XII) em Libertação do Erro [tradução direta] de Al-Ghazali, onde é provido a chave para a resolução “Sufi” de sua crise religiosa e suas dúvidas céticas sobre a libertação da percepção dos sentidos e da desassistida razão humana. Fé é assim entendida como um tipo de conhecimento tratada por uma certeza que exclui dúvidas. Mas a fé não será exclusivamente cognitiva, se, como na definição de Calvino, o conhecimento-fé não é somente “revelado a nossas mentes” mas também “selada em nossos corações”. Pois nesse modelo de fé irá também ter um componente afetivo/avaliativo que inclui um acolhedor conhecimento recebido.


Os aspectos práticos da fé no modelo “conhecimento especial”

Esse modelo de fé como conhecimento especial, certo e acolhedor, exibe a fé como essencialmente algo a ser recebido. Não obstante, o modelo pode admitir um componente prático, porquanto uma resposta ativa é requerida para a recepção do presente divino. Assim o componente prático é implicado pela real possibilidade de que a fé pode ser resistida: de fato, cristãos podem sustentar que em nosso estado pecaminoso nós vamos inevitavelmente oferecer uma resistência à fé que pode ser superada somente pela graça de Deus. Isso é, no entanto, um próximo passo para as pessoas de fé colocar seus conhecimentos revelados em prática pela sua confiança de suas vidas a Deus e procurar obedecer a sua vontade. Posto o modelo “conhecimento especial” de fé, no entanto, essa atividade conta como “agir” na sua fé em vez de uma parte da fé em si mesma. Pessoas de fé assim agem “em”, “através” ou “pela” fé: mas, nesse modelo, sua própria fé é o acolhedor conhecimento revelado no qual eles agem.

Link para o capítulo traduzido: 

Autor do verbete: John Bishop


quarta-feira, 8 de março de 2017

Fé (Parte 1 de 10)

1. Modelos de fé e seus componentes-chave

Enquanto a reflexão filosófica sobre a fé de um tipo exemplificado na fé religiosa pode ser idealmente esperado produzir uma definição combinada em termos de condições necessárias e suficientes que articulam a natureza da fé, a presente discussão procede identificando componentes-chave que ocorrem em diferentes abordagens de fé religiosa. O objetivo também é identificar o alcance focal de problemas no qual diferentes instâncias são tomadas por diferentes abordagens. Há uma pluralidade existente de entendimentos filosóficos ou modelos de fé do tipo religioso. Essa discussão então foca em montar dialeticamente uma organização dessa pluralidade, enquanto também dá indicações das razões que podem haver para preferir modelos particulares invés de outros. Desde que “religião” em si pode bem significar uma universal “família de assemelhados”, essencialismo sobre fé do tipo religioso pode ser mal colocado. Não obstante, o conceito de fé como encontrado na tradição abraâmica teísta religiosa é amplamente considerado como unificado o suficiente para uma investigação em sua natureza para dar sentido, mesmo uma bem-sucedida definição é esperar demais (esse tipo de fé pode ser concebido como um conceito primitivo, por exemplo).

Note que alguns filósofos aproximam-se do alvo da fé religiosa primeiro classificando e analisando usos ordinários da linguagem do termo “fé” e locuções nas quais o termo ocorre. Veja, em exemplos recentes, Audi 2011 (Capítulo 3, seção 1), que identifica sete diferentes tipos de fé, e Howard-Snyder (2013b), que se esforça para dar uma análise geral da fé “proposicional” - i.e., fé de que p é verdade, onde p é uma proposição relevante. A presente discussão, no entanto, lida diretamente com a noção alvo do tipo de fé exemplificado na fé religiosa, assumindo o conhecimento de fundo de um trabalho de compreensão da noção como empregada em formas religiosas de vida, e especificamente naquelas pertencentes à tradição teísta. Insights da análise da fé entendida mais amplamente pode, no entanto, ser importante em construir modelos de fé do tipo religioso, como emergirá abaixo na discussão da fé religiosa como um tipo de confiança (Seção 6).

A noção de fé religiosa como a possessão de um todo de pessoas é familiar, e defensável teologicamente, principalmente, em tradições teístas. Abordagens filosóficas da fé teísta tipicamente focam, no entanto, no que é para uma pessoa individual “ter fé” ou ser “uma pessoa de fé”. Uma ampla inicial distinção é entre pensar a fé somente como um estado da pessoa e pensar isso como também envolvendo um ato, ação ou atividade de uma pessoa. A fé pode ser um estado de alguém estar em, ou vem a ser em; pode também essencialmente envolver alguma coisa que alguém faz. Uma adequada abordagem da fé, talvez, precise abarcar ambas. No contexto cristão a fé cristã é entendida como um presente de Deus e também como requerido de uma resposta humana de assentimento e confiança, assim que a fé dele é alguma coisa com respeito ao qual as pessoas estão ambas receptivas e ativas.

Há, no entanto, alguma tensão em entender a fé como um presente a ser recebido e como essencialmente envolvendo uma ventura a ser querida e ordenada. Uma abordagem filosófica da fé pode ser esperada para iluminar esse aparente paradoxo. Um princípio para classificar modelos de fé é segundo a extensão a qual eles reconhecem como um componente ativo na fé em si mesma, e a maneira que eles identificam que o componente ativo e sua relação com os outros componentes da fé. É útil considerar os componentes da fé (variadamente reconhecidos e enfatizados em diferentes modelos de fé) como dividindo-se em três amplas categorias: o afetivo, o cognitivo e o prático. Existem também componentes avaliativos na fé – estes podem aparecer como implicados no componente afetivo e/ou cognitivo, de acordo com a preferência de alguém de uma metateoria de valor. 


2. O componente afetivo da fé

Um componente da fé é um certo tipo de estado afetivo psicológico – a saber, um estado de sentir confidente e confiante. Alguns filósofos sustentam que a fé é para ser identificada simplesmente com esse estado: veja, por exemplo, Clegg (1979, 229) que sugere que isso pode ser visto no entendimento de Wittgenstein. Fé nesse sentido – como um global “padrão” de atitude na vida – provê uma fundação valiosa para prosperar: sua perda é reconhecida como a calamidade psíquica de “alguém perder sua fé”. Mas se confidência fundacional existencial é para caracterizar no modelo de fé de um tipo exemplificado pelos teístas, mais precisa ser adicionado sobre o tipo de confidência envolvido. A fé teísta é essencialmente fé em Deus. Em geral, a fé de um tipo exemplificado pela fé teísta deve ter algum objeto intencional. Pode assim ser argumentado que um modelo adequado desse tipo de fé não pode ser reduzido a alguma coisa puramente afetiva: algum amplo componente cognitivo é também requerido.


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Autor do verbete: John Bishop


Bibliografia

sábado, 4 de março de 2017

Introdução a Fé (John Bishop)

Agora sobre fé, lançarei para vocês mais uma série de traduções de um verbete da Stanford Encyclopedia of Philosophy. O verbete pertence ao filósofo John Bishop, professor da Universidade de Auckland na Nova Zelândia. As traduções serão dividas em 10 partes, mais ou menos conforme os capítulos feitos na página do verbete  da Stanford. Os capítulos 1 e 2 serão lançados juntos, porque o capítulo 2 é muito pequeno para ser lançado sozinho. Como aconteceu na outra série de traduções, no final, vou publicar a tradução completa em pdf. Por enquanto fiquem com a tradução da introdução ao assunto. Divirtam-se



O que é a fé? Esse verbete foca na natureza da fé, embora questões sobre a justificabilidade da fé também são implicadas.

Fé” é um termo amplo, aparecendo em locuções que expressam uma variedade de diferentes conceitos. No seu uso mais comum “fé” significa o mesmo que “confiar”. Esse verbete está especificamente interessado, no entanto, com a noção de fé religiosa – ou, melhor (e isso é uma qualificação importante), o tipo de fé exemplificado na fé religiosa. Abordagens filosóficas são quase exclusivamente sobre fé religiosa teísta – fé em Deus – e elas geralmente, embora não exclusivamente, lidam com a fé como entendida dentro do ramo cristão das tradições abraâmicas. Mas, embora o contexto religioso teísta decida qual é o tipo de fé que interessa, a questão surge se a fé daquele mesmo tipo comum também pertence a outro contexto religioso não teísta, ou ao contexto não usualmente pensado como religioso.

A presente discussão foca na fé religiosa teísta como um paradigma de tipo de fé que interessa, embora a questão da fé fora desse contexto é falado na seção final (11). Reflexão filosófica na fé religiosa teísta tem produzido diferentes abordagens ou modelos de sua natureza. Esse verbete sugere que existem diversos componentes-chave que podem caracterizar, com ênfases variadas, esses modelos de fé – em particular, o afetivo, o cognitivo, o avaliativo, o prático (ou, como alguns podem dizer, o volicional). Isso sugere também que há uma variedade de diferentes princípios de acordo com o qual modelos de fé podem ser categorizados, incluindo

  • como o modelo relaciona a fé como um estado de componentes ativos associados com a fé;
  • se o modelo toma o objeto da fé sendo exclusivamente proposicional ou não;
  • o tipo de epistemologia com o qual o modelo é associado – se é amplamente “evidencialista” ou “fideísta”;
  • se o modelo é necessariamente restrito à fé religiosa teísta, ou pode ser estendido além disso.

Não há uma única terminologia “estabelecida” para diferentes modelos de fé. Uma breve caracterização inicial dos principais modelos de fé e suas nomenclaturas como eles se exibem nessa discussão pode mesmo assim ser útil – eles são:

  • o modelo “puramente afetivo”: a fé como um sentimento de confidência existencial
  • o modelo “conhecimento especial”: a fé como conhecimento de verdades específicas, reveladas por Deus
  • o modelo “crença”: a fé como crença de que Deus existe (onde o objeto da crença é uma proposição determinada)
  • o modelo “confiança”: a fé como acreditar em (no sentido de confiar em) Deus (onde o objeto da crença ou confiança não é uma proposição, mas Deus “ele mesmo”)
  • o modelo “ventura doxástica”: a fé como comprometimento prático além da evidência da crença de que Deus existe
  • modelos “sub” e “não ventura doxástica”: a fé como comprometimento prático a uma positivamente relevante avaliação de afirmação de verdade, ainda sem crença
  • o modelo “esperança”: a fé como a esperança – ou agir na esperança - de que o Deus que salva existe.

Esse verbete procede dialeticamente, com a seção posterior pressupondo a discussão anterior.


  • 1. Modelos de fé a seus componentes-chave
  • 2. O componente afetivo da fé
  • 3. A fé como conhecimento
  • 4. Fé e razão: a epistemologia da fé
  • 5. A fé como crença
  • 6. A fé como confiança
  • 7. A fé como ventura doxástica
  • 8. A fé como sub ou não ventura doxástica
  • 9. A fé como esperança
  • 10. A fé como uma virtude
  • 11. A fé além do teísmo (ortodoxo)

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Autor do verbete: John Bishop

quarta-feira, 1 de março de 2017

Realismo Científico (Parte 4 de 4)

4.ANTIRREALISMO: FRUSTRAÇÕES PARA O REALISMO CIENTÍFICO


4.1 Empirismo

O termo antirrealismo engloba qualquer posição que é oposta ao realismo juntamente com uma ou mais das dimensões examinadas na seção 1.2: o comprometimento metafísico à existência de uma realidade independente da mente; o comprometimento semântico para interpretar as teorias literalmente ou com valor aparente; e o comprometimento epistemológico considerando as teorias como construindo conhecimento de ambos os observáveis e os inobserváveis. Como resultado, o que é de se esperar, existem muitas maneiras diferentes de ser um antirrealista, e muitas posições diferentes são qualificadas como antirrealismo. No desenvolvimento histórico do realismo, é defensável que a mais importante força do antirrealismo tem sido variedades do empirismo no qual, dado a sua ênfase na experiência como uma fonte de tema de conhecimento, são naturalmente colocadas contra a ideia de conhecimento dos inobserváveis. É possível ser um empirista amplamente falando de uma maneira consistente com o realismo - por exemplo, pode-se endossar a ideia de que o conhecimento do mundo provém de investigação empírica, mas alegar com base nisso, pode-se justificavelmente inferir certas coisas sobre os inobserváveis. Na primeira metade do século XX, no entanto, o empirismo veio predominantemente nas variadas formas de "instrumentalismo': a visão de que teorias são meramente instrumentos para predizer fenômenos observáveis ou sistematizar relatórios de observação.

 Tradicionalmente, o instrumentalismo sustenta que os termos para os inobserváveis, por eles mesmos, não tem significado; construído literalmente, afirmações envolvendo eles não são sequer candidatos à verdade ou falsidade. Os mais influentes defensores do instrumentalismo são os empiristas lógicos (ou positivas lógicos), incluindo Carnap e Hempel, famosamente associados com o grupo de filósofos e cientistas como também outros importantes contribuidores do Circulo de Viena. A fim de racionalizar o uso ubíquo dos termos os quais podem ser tomados referindo-se aos inobserváveis no discurso científico, eles adotam uma semântica não literal de acordo com estes termos adquirindo significado ao serem associados com os termos observáveis (por exemplo, "elétron" pode significar "faixa branca em uma câmera de nuvem"), ou com procedimentos laboratoriais demonstráveis (uma visão chamada "operacionalismo"). Dificuldades insuperáveis com essa semântica conduziu no fim das contas (em grande medida) no declínio do empirismo lógico e o crescimento do realismo. O contraste aqui não é meramente na semântica e epistemologia: um número de empiristas lógicos também sustentam a visão neo-kantiana de que questões ontológicas "externas" às molduras para o conhecimento representado por teorias também são sem significado (a escolha de uma moldura é feita somente em fundamentos pragmáticos), assim rejeitando a dimensão metafísica do realismo (como em Carnap 1950). (Duhem 1954/1906 foi influente com respeito ao instrumentalismo; para uma crítica da semântica do empirismo lógico, veja Brown 1977, cap. 3; sobre o empirismo lógico de forma mais geral, veja Giere & Richardson 1997 e Richardson & Uebel 2007; sobre a leitura neo-kantiana, veja Richardson 1998 e Friedman 1999.)

Van Fraassen (1980) reinventou o empirismo no contexto científico, evadindo muitos dos desafios encarados pelos empiristas lógicos, por adotar uma semântica realista. Sua posição, empirismo construtivo, sustenta que o objetivo da ciência é a adequação empírica, onde "uma teoria é exatamente empiricamente adequada se o que ela diz sobre as coisas observáveis e os eventos no mundo é verdadeira" (p. 12; p. 64 dá uma definição mais técnica nos termos de uma incorporação das estruturas observáveis nos modelos científicos). Crucialmente, ao contrário do instrumentalismo tradicional e empirismo lógico, o empirismo construtivo interpreta as teorias precisamente da mesma maneira que o realismo. O antirrealismo da posição é inteiramente devido a sua epistemologia - a posição recomenda crença nas melhores teorias somente na medida em que elas descrevem os fenômenos observáveis, e uma atitude agnóstica com respeito a qualquer coisa inobservável. O empirista construtivo assim reconhece as reivindicações sobre os inobserváveis como verdadeiros ou falsos, mas não vai tão longe ao ponto de acreditar ou não nelas. Na defesa de uma restrição da crença no domínio do observável, a posição é similar a tradição instrumentalista, e é por essa razão que algumas vezes  a visão é descrita como uma forma de instrumentalismo. (Para elaborações do ponto de vista, veja Van Fraassen 1985, 2001, e um estudo útil, Rosen 1994.) Há também afinidades com a ideia de ficcionalismo, segundo o qual as coisas no mundo são e se comportam como se as nossas melhores teorias científicas são verdades (Vaihinger 1923/1911, Fine 1993).


4.2 Historicismo

O colapso do programa do empirismo lógico foi em parte facilitado por uma virada histórica na filosofia da ciência nos anos 60, associado com autores tais como Kuhn, Feyerabend, e Hanson. O muito influente trabalho de Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas, teve uma função significativa em estabilizar um duradouro interesse numa forma de historicismo sobre o conhecimento científico, particularmente entre àqueles interessados na natureza da prática científica. Um princípio fundamental da virada histórica foi tomar a história da ciência e sua prática de maneira séria por prover descrições do conhecimento científico in situ. Kuhn argumentou que os frutos de tal história iluminam um padrão recorrente: períodos da então chamada ciência normal, frequentemente bastante longa em duração (considere, por exemplo, os períodos dominados pela física clássica, ou física relativista), pontuadas por revoluções as quais conduzem as comunidades científicas de um período de ciência normal a outro. As implicações para o realismo nesse quadro derivam da caracterização de Kuhn de conhecimento em ambos os lados de uma divisão revolucionária. Dois diferentes períodos de ciência normal, diz ele, são "incomensuráveis" um com o outro, de tal maneira que surge um mundo importantemente diferente depois da revolução (o fenômeno da "mudança de mundo"). (Entre os muitos detalhados estudos desses tópicos, veja Horwich 1993, Hoyningen-Huene 1993, Sankey 1994, e Bird 2000.)

A noção de incomensurabilidade concerne a comparação de teorias em vigor durante diferentes períodos de ciência normal. Kuhn afirma que se duas teorias são incomensuráveis, elas não são comparáveis de uma maneira que seria permitido o julgamento de que uma é epistemicamente superior a outra, porque diferentes períodos de ciência normal são caracterizadas por diferentes "paradigmas" (comprometimentos às representações simbólicas dos fenômenos, crenças metafísicas, valores, e técnicas de resolver problemas). Como consequência, cientistas em diferentes períodos de ciência normal geralmente empregam diferentes métodos e critérios, vivenciam o mundo diferentemente via percepções com "carregamento teórico", e mais importante para Kuhn (1983), difere com respeito aos significados de seus termos. Essa é uma versão do holismo ou contextualismo de significado, segundo o qual o significado de um termo ou conceito é esgotado por suas conexões a outros termos e conceitos dentro de um paradigma. Uma mudança em qualquer parte dessa cadeia implica uma mudança no significado por inteiro - o termo "massa", por exemplo, tem significados diferentes no contexto da física clássica e física relativista. Assim, qualquer julgamento no sentido de que a última caracterização da massa está perto da verdade, ou até que as teorias relevantes descrevam a mesma propriedade, é consideravelmente confuso: a massa divide-se entre dois conceitos diferentes os quais podem somente ser entendido apropriadamente de uma maneira historicizada, da perspectiva dos paradigmas no qual elas ocorrem.

As mudanças na percepção, conceitualização, e linguagem que Kuhn associou com mudanças de paradigma também deu incentivo a sua noção de mudança de mundo que estende ainda mais o contraste da abordagem historicista com o realismo. Há um importante sentido, ele sustenta, no qual depois de uma revolução científica, os cientistas vivem em um mundo diferente. Isso é uma célebre observação enigmática na Estrutura (pp. 111, 121, 150), mas Kuhn (200, p. 264) mais tarde dá uma virada neo-kantiana: paradigmas funcionam de modo a criar a realidade dos fenômenos científicos, por isso permite cientistas engajarem-se com essa realidade. Nessa visão, pareceria que não somente o significado, mas também os referentes dos termos são forçados por fronteiras paradigmáticas. E assim, refletindo um interesse paralelo com o empirismo lógico neo-kantiano, a ideia de um mundo transcendente-paradigmático o qual é investigado por cientistas, e sobre o qual pode ter conhecimento, não tem conteúdo cognitivo óbvio. Nesse quadro, a realidade empírica é estruturada por paradigmas científicos, e isso viola o comprometimento metafísico do realismo à existência de um mundo independente da mente.


4.3 Construtivismo Social

Um resultado da virada histórica na filosofia da ciência e sua ênfase na prática científica foi um foco nas complexas interações sociais que inevitavelmente cercam e infundem a produção de conhecimento científico. Relações entre experts, seus estudantes, e o público, colaboração e competição entre indivíduos e instituições, e contextos sociais, econômicos e políticos tornaram-se os assuntos de uma abordagem para estudar as ciências conhecidas como a sociologia do conhecimento científico, ou SSK [sociology of scientific knowledge]. Embora na teoria, um comprometimento para estudar as ciências de uma perspectiva sociológica é interpretável de uma maneira a ser neutra quanto ao realismo (Lewens 2005), na prática, a maioria das explicações da ciência inspiradas pelo SSK são implicitamente ou explicitamente antirrealista. Esse antirrealismo na prática vem de uma sugestão comum que uma vez apreciada a função que fatores sociais (usando isso como um termo genérico para os tipos de interações e contextos indicados acima) desempenham na produção de conhecimento científico, um comprometimento filosófico a alguma forma de "construtivismo social" é inescapável, e esse último compromisso é inconsistente com vários aspectos do realismo.

O termo "construção social" refere-se a algum processo gerador de conhecimento no qual o que conta como um fato é substantivamente determinado por fatores sociais, e no qual diferentes fatores sociais provavelmente gerariam fatos que são inconsistentes com o que é atualmente produzido. A implicação importante aqui é, portanto, uma afirmação contrafactual sobre a dependência dos fatos sobre os fatores sociais. Existem numerosas maneiras no qual determinantes sociais podem ser consistentes com o realismo; por exemplo, fatores sociais podem determinar a direção e metodologias de uma pesquisa permitida, encorajada e consolidada, mas isso por si só não precisa enfraquecer a atitude realista com respeito às produções do trabalho científico. Frequentemente, no entanto, o trabalho no SSK toma a forma de estudos de casos que visam demonstrar como decisões particulares afetam o trabalho científico que é influenciado pelos fatores sociais que, sendo eles diferentes, teriam facilitado resultados que são inconsistentes com àqueles em última análise aceitados como fato científico. Alguns, incluindo proponentes do então chamado Programa Forte no SSK, argumentam que por razões mais gerais, tal contingência factual é inevitável. (Para uma amostra de abordagens influentes para o construtivismo social, veja Latour & Woolgar 1986/1979, Knorr-Cetina 1981, Pickering 1984, Shapin & Schaffer 1985, e Collins & Pinch 1993; sobre o Programa Forte, veja Barnes, Bloor & Henry 1996; para um estudo histórico da transição de Kuhn para SSK e construtivismo social, veja Zammito 2004, caps. 5-7.)

Por fazer os fatores sociais uma inextricável, determinante substantiva  do que conta como verdadeiro ou falso no campo das ciências (e o que mais for), o construtivismo social se opõe a constatação realista de que teorias podem ser entendidas como fornecedoras de conhecimento de um mundo independente da mente. E como na abordagem historicista, noções tais como verdade, referência e ontologia sao aqui relativas aos contextos particulares e não tem alcance de um contexto transcendente. Em particular, o último trabalho de Kuhn e Wittgenstein foram influentes no desenvolvimento de uma doutrina do Programa Forte o "finitismo de significado", segundo o qual os significados de termos são concebidos como instituições sociais: as várias maneiras na qual eles são usados de maneira bem-sucedida na comunicação dentro de uma comunidade linguística. Essa teoria de significados forma a base de um argumento no sentido de que os significados dos termos científicos (inter alia) são produtos de negociação social e não precisam ser fixados ou determinados, o qual mais conflitos com um número de noções realistas, incluindo a ideia de convergência em direção a teorias verdadeiras, melhoras com respeito à ontologia ou verdade aproximada, e referência determinada às entidades, propriedades e relações independentes da mente. O assunto do neo-kantianismo assim emerge de novo, embora sua força nas doutrinas construtivistas variam significativamente (para uma robusta visão finista, veja Kusch 2002, e para um construtivismo mais moderado, veja o "realismo interno" de Putnam (1981, cap.3) e compare Ellis 1988).


4.4 Abordagens Feministas

As críticas feministas estão ligadas tematicamente com o SSK e a formas de construtivismo social enfatizando a função de fatores sociais como determinantes de fatos científicos, mas estendendo a análise de uma maneira mais específica, refletindo preocupações particulares sobre a marginalização de visões baseado no gênero, etnicidade , status socioeconômico, e status político. Nem todas as abordagens feministas são antirrealistas, mas quase todas são normativas, oferecendo prescrições para revisar tanto a prática científica como os conceitos científico tais como objetividade e conhecimento que tem implicações diretas para o realismo. Com respeito a isso é importante distinguir (como originalmente proposto em Harding 1986) entre três amplas abordagens. Empirismo feminista foca na possibilidade de uma crença garantida dentro das comunidades científicas como uma função de transparência e consideração de vieses associados com diferentes visões que entram no trabalho científico. A teoria do ponto de vista investiga a ideia de que o conhecimento científico é inextricavelmente ligado às perspectivas decorrentes de diferenças em tais visões. O feminismo pós-moderno rejeita os conceitos tradicionais de objetividade e verdade universal ou absoluta. (Como é de se esperar, essas visões não são sempre nitidamente distinguíveis; para algumas abordagens influentes, veja Keller 1985, Harding 1986, Haraway 1988, Longino 1990, 2002, Alcoff & Potter 1993, e Nelson & Nelson 1996.)

A noção de objetividade tem um número de conotações tradicionais - incluindo indiferença (afastamento, falta de viés) e universalidade (independência de qualquer perspectiva particular ou ponto de vista) - os quais são comumente associados com conhecimento de um mundo independente da mente. As críticas feministas são quase unânime na rejeição do conhecimento científico no sentido de indiferença, oferecendo estudos de casos que visam demonstrar como a presença de (por exemplo) viés androcêntrico em uma comunidade científica pode conduzir para a aceitação de uma teoria em detrimento de outras (veja Longino 1990, cap. 6, para dois casos detalhados). Indiscutivelmente, a falha da objetividade nesse sentido é consistente com o realismo em princípio, mas somente sob certas condições. Se o viés relevante aqui é epistemicamente neutro (isto é, se a própria avaliação da evidência científica não é influenciada de uma maneira ou de outra), então o realismo permanece pelo menos como uma das interpretações viáveis dos resultados do trabalho científico. Em um caso mais interessante onde o viés é epistemicamente pretensioso, as perspectivas para o realismo são diminuídas, mas pode ser aprimorada por uma infraestrutura científica que funciona para trazê-la sob escrutínio (por meios de, por exemplo, revisão por pares efetiva, genuína consideração da visão das minorias, etc.), assim facilitando as medidas corretivas onde forem apropriadas. A controvérsia de que as ciências não geralmente exemplificam tal infraestrutura é um motivo para a normatividade que o feminismo empirista luta.

O desafio para a objetividade no sentido da universalidade ou independência de perspectivas é até mais difícil de conciliar com a possibilidade do realismo. Em uma linha Marxista, algumas teoristas do ponto de vista argumentam que certas perspectivas são epistemicamente privilegiadas no campo da ciência; em outras palavras, perspectivas subjugadas são epistemicamente privilegiadas em comparação às perspectivas dominantes em face de um profundo insight proporcionado a primeira (exatamente como o proletariado tem um profundo conhecimento do potencial humano mais do que o típico conhecimento superficial daqueles no poder). Outros retratam privilégio epistêmico de uma maneira mais despedaçada ou deflacionária, sugerindo que nenhuma visão pode ser estabelecida como superior a outra por qualquer padrão global de avaliação epistemológica. Essa visão é mais explícita no feminismo pós-moderno, o qual adota um completo relativismo com respeito a verdade (e presumivelmente a verdade aproximada, ontologia científica, e outras noções centrais para as várias descrições do realismo). Como no caso do Programa Forte no SSK, verdade e padrões epistêmicos são aqui definidos somente dentro do contexto de uma perspectiva, e consequentemente não podem ser interpretado por nenhuma espécie de contexto transcendente ou independente da mente.


4.5 Pragmatismo, Quietismo, e Paralisia Dialética

Não é incomum ouvir filósofos repararem que o diálogo entre várias formas de realismo e antirrealismo inspecionadas nesse artigo mostram cada sintoma de uma disputa filosófica perene. As questões contestadas variam de forma tão ampla  e extraem tantas intuições competidoras (sobre as quais, discutivelmente, pessoas racionais podem discordar) que alguns questionam se uma solução é sequer possível. Esse prognóstico de complexidade dialética potencialmente insolúvel é relevante para um número de outras visões na filosofia da ciência, algumas das quais surgem como resposta direta a isso. Por exemplo, Fine (1996/1986, caps. 7–8) argumenta que em última análise, nem o realismo nem o antirrealismo são defensáveis, e recomenda o que ele chama de "atitude ontológica natural" (NOA [natural ontological attitude]) (veja Rouse 1988 e 1991 para uma detalhada exploração dessa visão). NOA pretende incluir um neutro núcleo comum da atitude realista e antirrealista de aceitação de nossas melhores teorias. O erros que ambas as partes cometem, sugere Fine, é adicionar mais diagnósticos epistemológicos e metafísicos para essa posição compartilhada, tais como pronunciamento sobre quais aspectos da ontologia científica deve ser vista como real, quais são os sujeitos adequados de crença, e assim por diante. Outras afirmam que esse tipo de abordagem com relação ao conhecimento científico é não-filosófico ou anti-filosófico, e defendem o compromisso filosófico em debates sobre o realismo (Crasnow 2000, Mcarthur 2006). Musgrave (1989) argumenta que a visão é ou vazia ou colapsa em realismo.

A ideia de colocar o conflito entre abordagens realistas e antirrealistas à ciência de lado é também um tema recorrente na concepção tradicional de pragmatismo e quietismo. Considerando o primeiro, Peirce (1998/1992, in ‘Como Deixar As Nossas Ideias Claras', por exemplo, originalmente publicado em 1878) sustenta que o significado de uma proposição é dado por suas "consequências práticas" para a experiência humana, tais como implicações para a observação ou resolução de problemas. Para James (1979/1907), a utilidade positiva medida nesses termos é o indicador de verdade (onde a verdade é o que quer que será aceito em um limite ideal de investigação cientifica). Muitos dos pontos disputados pelos realistas e antirrealistas - diferenças no comprometimento epistêmico para com as entidades científicas, propriedades e relações baseadas em observabilidade, por exemplo - são efetivamente descartadas nessa visão. Isso é, no entanto, uma forma de antirrealismo nas leituras tradicionais de Peirce e James, uma vez que ambos sugerem que a verdade em um sentido pragmático esgota nossa concepção de realidade, assim ocorrendo a falta de dimensão metafísica do realismo. A noção de quietismo é frequentemente associada com a resposta de Wittgenstein aos problemas filosóficos sobre os quais, sustenta ele, nada de sensato pode ser dito. Isso não é dizer que engajar-se com tais problemas não possa ser do gosto de alguém, mas antes que independentemente do interesse ou falta de interesse de alguém, a disputa em si se preocupa com um pseudo-problema. Blackburn (2002) sugere que as disputas sobre o realismo podem ter essa característica. 

Uma última consideração sobre a putativa insolubilidade dos debates interessados em realismo  foca num certo comprometimento metafilosófico adotado por interlocutores relevantes. Wylie (1986, p. 287), por exemplo, afirma que "as posições mais sofisticadas em ambos os lados agora incorporam concepções autojustificadas do objetivo da filosofia e dos padrões de adequação apropriado para julgar teorias filosóficas da ciência". Isso é, diferentes suposições ab initio considerando quais tipos de inferências são legitimas, quais tipos de evidência razoavelmente amparam crenças, se há uma demanda genuína para a explicação de fenômenos observáveis em termos de realidades subjacentes, e assim por diante, pode tornar alguns argumentos entre realistas e antirrealistas uma petição de princípio. Esse diagnóstico é defensavelmente facilitado pela sugestão de van Fraassen (1989, pp. 170–176, 1994, p. 182) que nem o realismo nem o antirrealismo (no seu caso, empirismo) são descartados por plausíveis cânones de racionalidade; cada um é sustentado por uma concepção diferente de quanto risco epistêmico alguém deve tomar no momento de formar crenças baseadas em suas evidências. Uma intrigante questão então emerge de como as disputas em torno do realismo e do antirrealismo são solucionáveis em princípio, ou se, em última análise, a consistência interna e formulação coerente dessas posições devem ser consideradas como irreconciliáveis mas, no entanto, interpretações permissíveis do conhecimento científico. (Chakravartty 2007a, pp. 16–26).


Versão completa em pdf: Realismo Científico
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terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Realismo Científico (Parte 3 de 4)

3. CONSIDERAÇÕES CONTRA O REALISMO CIENTÍFICO (E REPOSTAS)


3.1 A Subdeterminação da Teoria pelos Dados

Alinhado em oposição às várias motivações para o realismo apresentadas na seção 2, existe um número importante de argumentos antirrealista, todos os quais têm pressionado realistas ou para tentar refutá-los, ou para modificar o seu realismo de forma adequada. Um desses desafios, a subdeterminação da teoria pelos dados, tem uma história na filosofia do século vinte em termos gerais, e é frequentemente ligado ao trabalho de Duhem (1954/1906. cap.6). Em observações sobre a confirmação das hipóteses científicas (em física, o qual ele contrasta com a química e a fisiologia), Duhem notou que uma hipótese não pode ser usada para derivar predições testáveis isoladamente; para derivar predições também requer-se suposições "auxiliares", tais como teorias de fundo, hipóteses sobre instrumentos e medições, etc. Se observações e experimentos subsequentes produzirem dados que conflitem com àquelas preditas, pode-se pensar que isso reflete mal a hipótese sob teste, mas Duhem apontou que dada todas as suposições requeridas para derivar predições, não é uma simples questão de identificar onde está o erro. Diferentes ajustes a um conjunto total de crenças quanto às hipóteses e teorias, farão com que elas sejam consistentes com os dados. Um resultado similar é comumente associado com um posterior "holismo confirmacional" de Quine (1953), segundo o qual a experiência (incluindo, claro, àquela associada com a testagem científica) não confirma ou anula crenças individuais per se, mas antes o conjunto de crenças tomada como um todo. A tese da subdeterminação é, assim, algumas vezes referida como a "tese Duhem-Quine" (veja Ben-Menahem 2006 para uma introdução histórica).

Como isso causa uma preocupação para o realismo? O argumento da subdeterminação procede assim: vamos chamar de relevante o conjunto total de crenças científicas de "teorias"; diferentes teorias conflitantes são consistentes com os dados; os dados exaustam as evidências para a crença; então, não há razões evidentes para acreditar em uma tese e não na outra. Dado que as teorias diferem precisamente no que elas dizem sobre os inobserváveis (suas consequências observáveis - os dados - são todas partilhadas), um desafio para o realismo surge: a escolha entre quais teorias acreditar é subdeterminada pelos dados. No debate contemporâneo, o desafio é normalmente apresentado usando uma terminologia sutilmente diferente. Toda teoria, dizem, têm rivais empiricamente equivalentes - isto é, rivais que concordam com respeito aos observáveis, mas diferem em respeito aos inobserváveis. Isso então serve de base para o argumento cético em relação à verdade de qualquer teoria em particular que o realista queira endossar. Várias formas de antirrealismo depois sugeriram que as hipóteses e as teorias envolvendo inobserváveis são endossadas, não meramente baseadas em evidências que podem ser relevantes para a sua verdade, mas também são baseadas em outros fatores que não são indicativos da verdade como tais (veja seções 3.2, e 4.2-4.4). (Para explicações modernas, veja van Fraassen 1980, ch. 3, Earman 1993, Kukla 1998, caps. 5–6, e Stanford 2001.)

O argumento da subdeterminação é contestado de inúmeras formas. Pode-se, por exemplo, distinguir entre subdeterminação na prática (ou em um momento) e subdeterminação em princípio. No primeiro caso, há uma subdeterminação somente porque os dados que dariam apoio a alguma teoria ou hipótese às custas de uma outra não é possível, aguardando os previsíveis desenvolvimentos da técnica experimental ou instrumental. Aqui, o realismo é  defensavelmente consistente com a atitude de "espere e veja", ainda que se a expectativa de uma evidência discriminatória futura seja pobre, o compromisso com o futuro faz com que o realismo possa ser questionado. De qualquer modo, a maioria dos proponentes da subdeterminação insistem na ideia da subdeterminação em princípio: a ideia de que sempre haverá (plausíveis) rivais empiricamente equivalentes não importando quais evidências poderiam surgir. Em resposta, alguns argumentam que a preocupação de princípio não pode ser estabelecida, uma vez que o que conta como dado é apto a mudar conforme o tempo com o desenvolvimento de novas técnicas e instrumentos, e com mudanças no conhecimento científico de fundo, o qual altera as suposições auxiliares requeridas para derivar predições observáveis (Laudan & Leplin 1991). Tais argumentos repousam, no entanto, em diferentes conceitos de dado mais do que os antirrealistas gostariam de admitir (definido acima, em termos de capacidades humanas sensoriais). (Para outras respostas, veja Okasha 2002, van Dyck 2007, e Busch 2009. Stanford 2006 propôs uma versão historicizada do argumento da subdeterminação, discutida em Chakravartty 2008 e Godfrey-Smith 2008).


3.2 Ceticismo sobre a Inferência para a Melhor Explicação

Uma especialmente importante reação às preocupações sobre a alegada subdeterminação da teoria pelos dados levanta outro principal argumento antirrealista. Essa reação é a de rejeitar uma premissa chave para o argumento da subdeterminação, a saber, que a evidência para a crença numa teoria é esgotada pelos dados empíricos. Muitos realistas argumentam que outras considerações - na maior parte, considerações explicativas - tem uma função evidencial na inferência científica. Se for assim, então mesmo que se conceda a ideia de que todas as teorias tenham rivais empiricamente equivalentes, isso não implicaria subdeterminação, uma teoria em particular tendo superioridade explicativa pode determinar a escolha.(Laudan 1990, Day & Botterill 2008). Esse é um exemplo específico de uma forma de raciocínio pelo qual "nós inferimos o que iria, se verdadeiro, fornecer a melhor explicação da evidência" (Lipton 2004/1991, p. 1). Para pôr a validez do realista contra ele: "infere-se da premissa, de que uma dada hipótese forneceria uma explicação 'melhor' para a evidência do que qualquer outra hipótese, para a conclusão de que uma dada hipótese é verdadeira" (Harman 1965, p. 89). A inferência para a melhor explicação (conforme a formulação de Lipton) parece ubíqua na prática científica. A questão de se pode ser esperado o tipo produção de conhecimento sugerido pelo realismo (conforme a formulação de Harman) é, no entanto, matéria de disputa.
Duas dificuldades são imediatamente visíveis em relação a aspiração realista para inferir a verdade (verdade aproximada, existência de entidades, etc.) das hipóteses ou teorias que são julgadas como melhores em fundamentos explicativos. A primeira dificuldade é sobre os fundamentos eles mesmos. A fim de julgar que uma teoria fornece uma melhor explicação de algum fenômeno do que outra, deve-se empregar algum critério ou critérios com base no qual o julgamento é feito. Muitos tem proposto simplicidade (se da descrição matemática ou em termos de números ou natureza de entidades, propriedades, ou relações envolvidas); consistência e coerência (ambas internamente e externamente com respeito a outras teorias e conhecimento de fundo); escopo e unidade (referindo-se ao domínio dos fenômenos explicados); e assim por diante. Um desafio aqui é se as virtudes tais como essas podem ser definidas de forma suficientemente precisas para permitir rankings relativo à excelência da explicação. Um outro desafio considera os múltiplos significados associados a algumas virtudes (considere, por exemplo, a simplicidade matemática vs a simplicidade ontológica). Uma outra preocupação é a possibilidade de que essas virtudes podem não favorecer uma teoria em particular. Finalmente, há a questão de se essas virtudes devem ser consideradas evidenciais ou epistêmicas, em oposição à meramente pragmáticas. Qual é a razão para pensar, por exemplo, que a simplicidade é um indicador da verdade? Consequentemente, a habilidade de classificar as teorias com respeito as suas probabilidades de serem verdadeiras podem ser questionadas.

Uma segunda dificuldade sobre a inferência para a melhor explicação concerne as acumulações de teorias no tocante aos julgamentos sobre a relativa eficácia explicativa que são feitas. Mesmo que os cientistas sejam possivelmente confiáveis classificadores de teorias com respeito à verdade, isso não produz crença em uma teoria (em alguns domínios) a menos que a teoria em particular ocorra de estar entre àquelas consideradas. Caso contrário, como van Fraassen (1989, p.143) notou, pode-se simplesmente terminar com "o melhor dentre os piores". Dado a bem difundida visão, até entre os realistas, de que muitas e talvez a maioria de nossas melhores teorias são falsas, estritamente falando, esse problema pode ser especialmente premente. No entanto, apenas a maneira que a estratégia realista da seletividade (veja seção 2.3.) pode oferecer respostas a essa questão do que significa para uma teoria estar perto da verdade sem ser verdadeira simpliciter, essa mesma estratégia pode oferecer os começos de uma resposta. Isto quer dizer, a melhor teoria dentre as piores pode não obstante descrever aspectos inobserváveis do mundo de uma tal maneira  que atenda aos diferentes padrões de realismo incluindo explanacionismo, realismo de entidades e realismo estrutural. (Para um livro inteiro tratando sobre a inferência para a melhor explicação, veja Lipton 2004/1991; para defesas, veja Lipton 1993, Day & Kincaid 1994, e Psillos 1996, 2009, parte III; para críticas, veja van Fraassen 1989, caps. 6–7, Ladyman, Douven, Horsten & van Fraassen 1997, e Wray 2008.)


3.3 A Indução Pessimista

Preocupações sobre a subdeterminação e a inferência para a melhor explicação são geralmente conceituais por natureza, mas a então chamada indução pessimista (também chamada de "meta-indução pessimista", porque diz respeito ao "nível de base" das inferências indutivas que produzem teorias e leis científicas) pretende-se como um argumento com premissas empíricas. Se considerarmos a história das teorias científicas em uma dada disciplina, o que tipicamente achamos é uma regular reviravolta de teorias antigas sendo substituídas por novas teorias, conforme o conhecimento científico desenvolve-se. Do ponto de vista do presente, a maioria das teorias antigas devem ser consideradas falsas; de fato, isso será verdade do ponto de vista na maioria das vezes. Então, por indução enumerativa (isto é, generalizando a partir desses casos), certamente as teorias em qualquer dado momento irão por fim ser substituídas e consideradas como falsas em algum momento futuro. Consequentemente, teorias atuais serão também falsas. A ideia geral de uma indução pessimista tem uma rica linhagem. Embora não endossando o argumento, Poincaré (1952/1905, p. 160), por exemplo, descreve a aparente "falência da ciência" dado a visivelmente "natureza efêmera" das teorias científicas, o qual descobre-se "uma abandonada após a outra", e Putnam (1978, pp. 22–25) descreve o desafio em termos de falhas de referência dos termos para os inobserváveis, com a consequência de que teorias empregando-as não podem ser ditas verdadeiras.

A discussão contemporânea é comumente focada no argumento de Laudan (1981) no sentido de que a história da ciência fornece uma vasta evidência de teorias empiricamente bem-sucedidas que foram depois rejeitadas; a partir de uma perspectiva ulterior, seus termos inobserváveis foram julgados sem referência e consequentemente não sendo considerados como verdadeiros ou nem aproximadamente verdadeiros. (Se preferir definir realismo em termos de ontologia científica em vez de referência e verdade, a preocupação pode ser reformulada em termos de ontologias equivocadas de teorias antigas de uma perspectiva posterior.) Respostas a esse argumento geralmente tomam uma das duas formas, a primeira decorrente das qualificações para o realismo esboçadas na seção 1.3, e a segunda das formas de seletividade realista esboçadas na seção 2.3 - ambas podem ser entendidas como tentativas para restringir a base indutiva do argumento de tal maneira que frustre a conclusão pessimista. Por exemplo, pode-se afirmar que se somente teorias suficientemente maduras e não ad hoc são consideradas, o número cujo os termos centrais não se referem e/ou o qual não podem ser relacionadas como aproximadamente verdadeiras é dramaticamente reduzido (veja referências na seção 1.3). Ou, o realista pode garantir que a historia da ciência apresenta um histórico de significativa descontinuidade referencial, mas mantendo que, não obstante, pode-se apresentar um histórico de continuidade impressionante considerando o que é apropriadamente endossado pelo realismo, como recomendado por explanacionistas, realistas de entidades, ou realistas estruturais (veja referencias, seção 2.3). (Para outras respostas, veja Leplin 1981, McAllister 1993, Chakravartty 2007, ch. 2, Doppelt 2007, e Nola 2008; Hardin & Rosenberg 1982, Cruse & Papineau 2002, e Papineau 2010 explora a ideia de que a referência é irrelevante para a verdade aproximada).

Na exata maneira em que alguns autores sugerem que o argumento do milagre é um caso de raciocínio falaciosos - falácia da taxa de base (veja seção 2.1) - alguns sugerem que a indução pessimista é falha da mesma forma (Lewis 2001, Lange 2002, Magnus & Callender 2004). O argumento é análogo: a falha putativa da referência na parte das antigas teorias bem-sucedidas, ou sua putativa falta de verdade aproximada, não pode ser usada para derivar a conclusão em relação as chances que nossas atuais melhores teorias não se referem aos inobserváveis, ou que elas não são aproximadamente verdadeiras, ao menos que saibamos a taxa de base da não referência ou não aproximadamente verdade das teorias em acúmulos relevantes. E como não se pode saber isso independentemente, a indução pessimista é falaciosa. De novo, analogamente, pode-se argumentar que a formalização do argumento em termos de probabilidades, como é requerido a fim de invocar a falácia da taxa de base, é perder o ponto mais fundamental subjacente a indução pessimista (Saatsi 2005b). Pode-se ler o argumento simplesmente como cortando um suposto link entre o sucesso empírico das teorias científicos e a bem-sucedida referência ou verdade aproximada, como oposto para uma indução enumerativa per se. Se mesmo uns poucos exemplos da história da ciência demonstrar que teorias podem ser empiricamente bem-sucedidas e ainda falhar em referir-se ao inobserváveis centrais que as invocam, ou falhar em ser o que os realistas consideram como aproximadamente verdadeiro, isso constitui prima facie um desafio para a noção que somente o realismo pode explicar o sucesso da ciência.


3.4 Ceticismo sobre Verdade Aproximada

Um regular apelo à noção de verdade aproximada pelos realistas tem diversas motivações. O muito difundido uso de abstração (isto é, incorporando alguns, mas não todos, os parâmetros relevantes na descrição científica) e idealização (alterando a natureza de certos parâmetros) sugere que mesmo muitas das nossas melhores teorias e modelos não são estritamente corretas. A disputa realista comum é que as teorias podem ser vistas como gradualmente convergindo à verdade como o progresso da investigação científica sugere que tal progresso é passível de avaliação ou medição de alguma maneira, se apenas em princípio. E mesmo para realistas que não são convergentistas de tal maneira, a importância de investir na metáfora das teorias estando perto da verdade é pressionada por antirrealista no sentido de que a metáfora é vazia. O desafio de fazer uma boa metáfora e explicar, em termos precisos, o que a verdade aproximada pode ser, é uma das fontes de ceticismo sobre o realismo. Duas amplas estratégias tem emergido em resposta a esse desafio: tentativas de quantificar a verdade aproximada definindo formalmente o conceito e a noção ligada de verdade aproximada relativa; e tentativas de explicar o conceito informalmente.

A rota formal foi inaugurada por Popper (1972, pp. 231–236), que definiu regulações relativas de "verossimilhança" (literalmente, "semelhança a verdade") entre teorias em um dado domínio ao longo do tempo por meio de uma comparação de suas consequências verdadeiras e falsas. Miller (1974) e Tichy (1974), no entanto, provaram que há um problema técnico com essa explicação. Produzir consequências com intuito de que teoria A tenha maior verossimilhança que a teoria B, A deve ser verdade  simpliciter - situação que deixa o realista insatisfeito e desejando uma explicação de como rigorosamente as teorias falsas podem diferir com respeito a verdade aproximada. Outra explicação formal é a abordagem dos mundos possíveis (também chamada de abordagem da "similaridade"), segundo o qual as condições de verdade de uma teoria são identificadas com um conjunto de mundos possíveis no qual é verdadeira, e a "veracidade" é calculada por meios de uma função que compara a média ou alguma outra "distância" matemática entre o mundo atual e os mundos naquele conjunto, assim facilitando regulações das teorias com respeito a veracidade (Tichý 1976, 1978, Oddie 1986b, Niiniluoto 1987, 1998; para críticas, veja Miller 1976 e Aronson 1990). Uma última tentativa de formalizar a verdade aproximada é o tipo de abordagem hierárquica, o qual analisa veracidade em termos de relações de similaridade entre nós de gráficos estruturados em árvore e tipos e subtipos representando conceitos científicos por um lado, e as entidades, propriedades, e relações no mundo que eles putativamente representam por outro lado (Aronson 1990, Aronson, Harré, & Way 1994, pp. 15–49; para uma crítica, veja Psillos 1999, p. 270–273).

Menos formalmente e talvez mais tipicamente, realistas tem tentado explicar a verdade aproximada em termos qualitativos. Uma sugestão comum é que uma  teoria pode ser considera mais aproximada da verdade do que outra que a precede se a teoria anterior pode ser descrita como um "caso limite" da posterior. A ideia de casos limites e relações interteóricas é mais normalmente elaborada por Post (1971; veja também French & Kamminga 1993), que argumenta que certos princípios heurísticos na ciência produzem teorias que "conservam" as partes bem-sucedidas de suas predecessoras. Seu "Princípio Geral de Correspondência" declara que novas teorias comumente explicam o sucesso de suas predecessoras por "degenerações" nas teorias antigas em domínios no qual as teorias antigas foram bem confirmadas. Por isso, por exemplo, a frequentemente citada afirmação de que certas equações na física relativista degeneram-se nas equações correspondentes na física clássica, como a velocidade tendendo ao zero. O realista pode então argumentar que teorias posteriores oferecem  mais descrições aproximadamente verdadeiras do assunto que a teoria aborda, e que os meios no qual elas o fazem pode ser iluminado em parte estudando as maneiras no qual elas edificam-se sobre os casos limites representados pelas suas predecessoras. (Para mais sobre verdade aproximada, veja Leplin 1981, Boyd 1990, Weston 1992, Smith 1998, e Chakravartty 2010.)


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Realismo Científico (Parte 2 de 4)

2. CONSIDERAÇÕES EM FAVOR DO REALISMO CIENTÍFICO (E RESPOSTAS)


2.1 O Argumento do Milagre

A mais poderosa intuição em favor do realismo é uma ideia antiga, comumente referida em discussões recentes como o "argumento do milagre" ou "argumento sem milagres", depois de Putnam (1975, p.73) alegar que o realismo "é a única filosofia que não faz o sucesso da ciência um milagre". O argumento começa com uma premissa amplamente aceita que as nossas melhores teorias são extraordinariamente bem-sucedidas: elas facilitam predições empíricas, retrodições, e explanações dos assuntos de investigação científica, muitas vezes marcadas pela surpreendente precisão e intricada manipulação causal dos fenômenos relevantes. O que explica esse sucesso? Uma explicação, favorecida pelos realistas, é que as nossas melhores teorias são verdadeiras (ou aproximadamente verdadeiras, ou corretamente descrevem um mundo independente da mente de entidades, propriedades, leis, estruturas, ou que você quiser). De fato, se essas teorias estão longe da verdade, assim argumentam, o fato de que elas são bem-sucedidas seriam um milagre. E dado a escolha entre uma explicação direta do sucesso ou uma explicação milagrosa, obviamente alguém deve preferir a explicação não-miraculosa, a saber, que as nossas melhores teorias são aproximadamente verdadeiras (etc.). (Para elaborações do argumento do milagre, veja Brown 1982, Boyd 1989, Lipton 1994, Psillos 1999, ch. 4, Barnes 2002, Lyons 2003, Busch 2008, and Frost-Arnold 2010.)

Embora intuitivamente poderoso, o argumento do milagre é contestável de inúmeras maneiras. Uma resposta cética é questionar a própria necessidade de uma explicação para o sucesso da ciência em primeiro lugar. Por exemplo, van Fraassen (1980, p. 40; veja também Wray 2007, 2010) sugere que teorias bem-sucedidas são análogas aos organismos bem-adaptados - uma vez que somente teorias bem-sucedidas (organismos) sobrevivem, não é de se surpreender que as nossas teorias são bem-sucedidas e, então, não há uma demanda para uma explicação do sucesso. Não é inteiramente claro, no entanto, se a analogia evolucionária é suficiente para dissolver a intuição por trás do argumento do milagre. Poderíamos perguntar, por exemplo, por que uma teoria em particular é bem-sucedida (em oposição por que as teorias em geral são bem-sucedidas), e a explicação solicitada pode ser as características específicas da teoria em si, incluindo as suas descrições dos inobserváveis. Se tal explicação precisa ser verdadeira, entretanto, é matéria de debate. Enquanto maioria das teorias da explicação requerem que o explanans seja verdadeiro, teoria pragmáticas da explicação não requerem que o explanans seja verdadeiro (van Fraassen 1980, ch. 5). Geralmente, qualquer epistemologia da ciência que não aceita um ou mais das três dimensões do realismo - comprometimento a um mundo independente da mente, semântica literal, ou acesso epistêmico aos inobserváveis - irá, desse modo, apresentar uma razão putativa para resistir ao argumento do milagre; essas posições serão consideradas na seção 4.

Alguns autores sustentam que o argumento do milagre em si é um caso de raciocínio falaciosos chamado falácia da taxa de base (Howson 2000, cap. 3, Lipton 2004, pp. 196–198, Magnus & Callender 2004). Considere a seguinte ilustração. Há um teste para uma doença pelo qual a taxa de falsos negativos (resultados negativos nos casos onde a doença está presente) é zero, e a taxa de falsos positivos (resultados positivos nos casos onde a doença está ausente) é uma em dez (isto é, 10% das vezes os indivíduos estão livre da doença). Se há um teste positivo, quais são as chances que a pessoa tenha a doença? Seria um erro concluir que, baseado na taxa de falsos positivos, a probabilidade é 90%, uma probabilidade real depende de mais, de informação crucial: a taxa de base da doença na população (a proporção das pessoas doentes). Quanto mais baixa a incidência da doença em geral, mais baixa a probabilidade de um resultado positivo indicar a presença da doença. Por analogia, usando o sucesso de uma teoria científica como um indicador de sua verdade aproximada (assumindo uma baixa taxa de falsos positivos - casos no qual teorias afastadas da verdade são, não obstante, bem-sucedidas) é defensavelmente, do mesmo modo, uma instância de falácia da taxa de base. O sucesso de uma teoria por si só não sugere que é apta a ser verdadeira de forma aproximada, e desde que não há maneira independente de conhecer a taxa de base das teorias aproximadamente verdadeiras, as chances dela ser aproximadamente verdade não podem ser avaliadas. Worrall (2009) mantém que essas controvérsias são ineficientes contra o argumento do milagre, porque elas dependem crucialmente de uma formalização enganadora do argumento em termos de probabilidades.


2.2. Corroboração

Uma estímulo para o realismo em conexão com pelo menos alguns inobserváveis descritos pelas teorias científicas vem por meio de "corroboração". Se uma entidade ou propriedade inobservável é putativamente capaz de ser detectada por instrumento ou experimento, pode-se pensar que isso pode formar a base de um argumento defensável para o realismo. Se, no entanto, aquela mesma entidade ou propriedade é putativamente capaz de ser detectada não apenas por um, mas também por dois ou mais diferentes meios de detecção - formas de detecção que são distintos com respeito aos aparelhos que eles empregam e os processos e mecanismos causais que eles descrevem como proveitoso no curso da detecção - isso pode servir como a base de um argumento significativamente aprimorado a favor do realismo. Hacking (1983, p. 201; veja também Hacking 1985, pp. 146–147) dá o exemplo dos corpos densos em plaquetas sanguíneas vermelhas que podem ser detectados usando diferentes modelos de microscópio. Diferentes técnicas de detecção, tais como aquelas aplicadas em microscopia de luz e microscopia de transmissão eletrônica, fazem uso dos muitos diferentes tipos de processos físicos, e essas operações são descritas teoricamente em termos de diferentes mecanismos causais correspondendo-se. (Para exemplos similares, veja Salmon 1984, pp. 217–219, e Franklin 1986, pp. 166–168, 1990, pp. 103–115).

O argumento da corroboração, portanto, é o seguinte. O fato de que uma e a mesma coisa é aparentemente revelada por modos distintos de detecção sugere que seria uma extraordinária coincidência se o suposto objeto dessas revelações, de fato, não existisse. Quanto maior o alcance em que as detecções podem ser corroboradas por meios diferentes, mais forte é o argumento para o realismo em conexão com o seu objeto putativo. O argumento aqui pode ser visto como pousando em uma intuição similar àquela subjacente ao do argumento do milagre: realismo baseado em uma detecção visível pode ser bastante atraente apenas se meios teoricamente independentes de detecção produzirem o mesmo resultado, sugerindo a existência de um e o mesmo inobservável, assim o realismo fornece uma boa explicação da evidência consiliente, em contraste com o defensável milagroso estado das circunstâncias em que técnicas teoricamente independentes produzam o mesmo resultado na ausência de um objeto em comum. A ideia que técnicas de detecção (putativa) são frequentemente construídas ou calibradas precisamente com a intenção de reproduzir os outputs de outros, no entanto, pode ser usado contra o argumento da corroboração. E mais, van Fraassen (1985, pp. 297–298) argumenta que explicações científicas da consiliência evidencial podem ser aceitadas sem as explicações em si sendo entendidas como verdadeiras, o qual mais uma vez surge questionamentos sobre a natureza da explicação científica.


2.3 Otimismo/Ceticismo Seletivo

Na seção 1.3, a noção de seletividade foi introduzida como um estratégia geral para maximizar a plausibilidade do realismo, particularmente com respeito aos inobserváveis científicos. Essa estratégia é adotada em parte para compatibilizar o realismo com a amplamente aceita ideia de que a maioria senão todas das nossas melhores teorias são falsas, estritamente falando. Se, não obstante, há aspectos dessas teorias que são verdadeiras (ou próximas da verdade) e alguém é apto a identificar esses aspectos, pode-se, então, plausivelmente lançar o realismo em termos de uma atitude epistemicamente positiva diante daqueles aspectos das teorias que são mais dignos de comprometimento epistêmico. As mais importantes variações do realismo a fim de implementar essa estratégia são o explanacionismo, realismo de entidades e realismo estrutural. (Para uma relação de trabalhos pertencentes a noção mais geral de seletividade, veja Miller 1987, caps. 8–10, Fine 1990, Jones 1991, e Musgrave 1992.) 

Explanacionistas sustentam que uma atitude realista pode ser justificada em conexão com inobserváveis descritos pelas nossas melhores teorias precisamente quando apelam àqueles inobserváveis que são indispensáveis ou senão importantes para explicar por que essas teorias são bem-sucedidas. Por exemplo, se tomarmos novas predições bem-sucedidas para ser uma marca das teorias dignas do compromisso realista em geral, então explanacionistas sugerem que, mais especificamente, àqueles aspectos da teoria que são essenciais para derivar novas predições são as partes da teoria mais digna de comprometimento realista. Nessa linha, Kitcher (1993, pp. 140–149) delineia uma distinção entre os "postulados pressuposicionais" ou "partes insignificantes" das teorias, e os "postulados operacionais" para os quais os realistas deveriam prestar a atenção. Psillos (1999, caps. 5–6) argumenta que o realismo pode ser defendido demostrando que o sucessos da antigas teorias não dependem dos seus falsos constituintes: "é suficiente mostrar que as leis e os mecanismos teóricos o qual geram o sucesso das teorias antigas têm sido preservados em nossa atual imagem científica" (p.108). O desafio que surge para o explanacionismo é fornecer um método com o qual podemos identificar precisamente aqueles aspectos das teorias que são requeridos para o seu sucesso, de uma maneira que seja objetiva ou com princípios bons o suficiente para resistir a acusação de que os realistas estão meramente racionalizando post hoc, identificando as partes cruciais explicativas das antigas teorias com aspectos que têm sido preservados nas nossas melhores teorias atuais. (Para debates, veja Chang 2003, Stanford 2003a, 2003b, Elsamahi 2005, McLeish 2005, 2006, Saatsi 2005a, Lyons 2006, e Harker 2010.) 

Outra versão do realismo que adota a estratégia da seletividade é o realismo de entidades. Nessa visão, o compromisso realista é baseado na habilidade putativa de causalmente manipular entidades inobserváveis (como elétrons ou sequências de genes) de uma maneira excepcional - por exemplo, excepcional no sentido de estar hábil a intervir em outros fenômenos a fim de causar certos efeitos. Quanto maior a habilidade de explorar um notável conhecimento causal de algo a ponto de conduzir (na maioria das vezes extremamente preciso) resultados, mais garantida será a crença (Hacking 1982, 1983, Cartwright 1983, cap. 5, Giere 1989, cap. 5). A crença em inobserváveis científicos assim descritos é aqui associada com um grau de ceticismo sobre teorias científicas em geral, e isso gera dúvidas sobre se acreditar em entidades enquanto recusa a crença em respeito as teorias que as descrevem é uma combinação coerente ou praticável (Morrison 1990, Elsamahi 1994, Resnik 1994, Chakravartty 1998, Clarke 2001, Massimi 2004). Realismo de entidades é especialmente compatível com e agradavelmente facilitado pela teoria causal da referência associada ao Kripke (1980) e Putnam (1985/1975, cap. 12). De acordo com esses, pode-se com sucesso referir a uma entidade apesar da mudança significativa ou até radical na descrição teórica das suas propriedades; isso permite a estabilidade do comprometimento epistêmico quando as teorias mudam ao longo do tempo. Se a teoria causal da referência pode ser aplicada com sucesso nesse contexto, no entanto, é matéria de debate (veja Hardin & Rosenberg 1983, Laudan 1984, Psillos 1999, ch. 12, e Chakravartty 2007a, pp. 52–56).

Realismo estrutural é uma outra visão estimulando a seletividade, mas nesse caso a natureza das entidades inobserváveis que são vistas ceticamente, tendo o realismo reservado a estrutura do campo inobservável, como representado por certas relações descritas por nossas melhores teorias. Todas as muitas versões dessa posição caem dentro de dois campos: o primeiro enfatiza uma distinção epistêmica entre noções de estrutura e natureza; o segundo enfatiza uma tese ontológica. A visão epistêmica mantém que nossas melhores teorias provavelmente não descrevem corretamente a natureza das entidades inobserváveis, mas com sucesso descrevem certas relações entre elas. A visão ontológica sugere que os realistas devem inclinar-se apenas para o conhecimento de estruturas, porque o próprio conceito de entidades que permanece nas relações é metafisicamente problemático - não existem, de fato, tais coisas, ou se existem, eles são em algum sentido emergentes ou dependentes dessas relações. Um desafio para a versão epistêmica é articular um conceito de estrutura que faça efetivamente distinção da natureza das entidades. A versão ontológica encara o desafio de clarear a noção relevante de emergência e/ou dependência. (Sobre realismo estrutural epistêmico, veja Worrall 1989, Psillos 1995, 2006, Votsis 2003, e Morganti 2004; sobre o realismo estrutural ontológico, veja French 1998, 2006, Ladyman 1998, Psillos 2001, 2006, Ladyman & Ross 2007, e Chakravartty 2007a, cap. 3).


Texto orginal de autoria de Anjan Chakravartty.